Como passa, hein?

Por Vanessa Henriques

Pode ser numa reunião de família, no trabalho, até mesmo no bar. A frase que antes só ouvia de minha avó, e talvez de minha mãe, agora contaminou todos os círculos sociais. Basta aquele silêncio momentâneo, precedido da clássica intervenção sobre os últimos desdobramentos climáticos e pronto! Lá vem ela:

— Nossa, como o ano passou rápido né? Já estamos no Natal!

Eu não sei onde todo mundo anda vivendo que o tempo tá correndo. Eu andei sofrendo o peso de todas as semanas sem feriado, os dias de trânsito caótico (geralmente motivados por algumas gotas de chuva), as filas de supermercado, as filas de banco, as filas no self-service de todo dia e tantas outras.

Bom, vamos esclarecer uma coisa: o ano continua passando na mesma velocidade de sempre, com suas 24 horas diárias multiplicadas por 365 dias. Em janeiro continua chovendo, em julho faz frio e em dezembro ninguém mais quer saber de trabalhar. Tudo na mesma.

O que mudou? Bom, meu caro, não nos resta alternativa a não ser olhar para nossos umbigos e ver que não aproveitamos mais o “tempo”, seja lá o que for isso. É tanta preocupação, tanto trânsito, tanta coisa atropelando outra que já não conseguimos parar e contemplar o decorrer do ano.

Parece que vivemos num estágio de ansiedade permanente, contando os dias até o próximo feriado, a próxima festa, as tão sonhadas férias. É como se uma úlcera gigante consumisse nossos minutos de forma exemplar, nos deixando com essa sensação de horas escorrendo pelos dedos.

Trabalha-se o dia inteiro. Estuda-se pela noite. E quando, com muito esforço, você termina seus estudos, encosta alguém do seu lado e pergunta: “e aí, já tá pensando o que vai fazer agora com todo esse tempo livre?”. ‘Que tempo livre?’, eu me pergunto. Agora posso voltar a ter uma vida minimamente normal, cortar minhas unhas do pé de 15 em 15 dias, sair pra jantar na sexta ou alugar um filme numa segunda-feira.

Mas não se iluda. Algumas semanas após sua colação de grau alguém já estará te perguntando: “E agora? Vai fazer pós? Um mestrado, talvez?”. Não vou fazer nada. Pode?

Não pode. Se você tem um tempo para você, ou para contemplar a vida, ou mesmo não acha que o Carnaval está próximo, não diga em voz alta. Guarde para você esse pequeno talismã, senão vão acabar te convencendo a comprar um panetonezinho em março. Afinal, o Natal tá logo aí!

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3 thoughts on “Como passa, hein?

  1. Acho que só não vendem panetone em março porque ovo de páscoa rende mais, mas quem sabe um dia. Esse texto me pegou em cheio, acabei de começar a graduação de história (junto com o mestrado) e estou pensando no que fazer quando tiver mais janelas na grade…acho que alugar um filme será uma boa.

    1. Ora, ora! Em comentário em outra crônica o Sr. Henrique havia justamente comentado sobre a correria, e agora o tema do texto é esse. E mãe e tias adoram falar que o ano voou, rs.

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