Quem gosta de mim é ela, quem gosta dela sou eu

Por Vanessa Henriques

Depois de um longo dia de trabalho, um longo banho e uma longa janta, nada melhor do que um chocolate ou algum doce para acalmar os ânimos. Procuro pelas gavetas, na dispensa, e não encontro o que procuro. Até que vejo, encostada em um canto da escrivaninha, uma sacolinha destas de lembrancinha de aniversário.

Vasculho a procura de algo doce, e só encontro papéis melecados. Maldita mania de não jogar os papéis fora, penso baixinho. Até que no fundo da bendita encontro um pirulito. Meio maltratado, de marca desconhecida, sabor idem. Poxa, que sorte!

Paro para pensar qual foi a última vez que chupei um pirulito. Nada. No colégio era uma febre, sempre que sobrava um troco da mesada eu me dava de presente um pirulito em formato de coração. Daqueles feitos com sabe-se-lá-Deus-o-que e com um gosto inconfundível. Será que ainda fazem pirulitos de coração?

Também não consigo lembrar qual foi a última vez que flagrei um adulto chupando um desses. Talvez um doce tão divertido não combine com o perfil dos adultos, que se conforma com um chiclete zero açúcar e zero gosto.

Dizem que nosso paladar vai se refinando com o passar dos anos, e por isso poucas crianças apreciam uma boa paella (bom, talvez crianças espanholas, mas isso não vem ao caso) ou um antepasto de berinjela — que mais parece um festival de lesmas gosmentas, devo admitir.

Mas será que perdemos nosso paladar primordial, regado ao misterioso tutti-frutti e doces que deixam a língua azul? Seríamos capazes de recusar um pirulito daqueles coloridos e enormes, dos tempos dos nossos pais, aqueles em formato de chupeta ou mesmo os que explodem na boca?

Proponho então um desafio: corra para a loja de doces mais próxima de sua casa. Mas não pode ser um supermercado ou uma padaria, tem que ser aquelas lojinhas escuras, com cheiro de infância e relíquias da culinária industrial-besteirenta como moedas e guarda-chuvinhas de chocolate. Percorra os corredores coloridos em busca do pirulito que mais lhe agrada (ou agradou) e deixe para saboreá-lo em um momento especial.

Se não sentir nenhuma nostalgia, ou mesmo se perguntar por que gostava tanto de uma porcaria como esta, parabéns, você ingressou no mundo adulto sem possibilidade de volta. Talvez um tic-tac esteja mais de acordo com o seu perfil. Agora se esse sabor iniciar uma experiência sinestésica, e te levar a lugares recônditos de sua memória, já aviso: não me mande a conta do analista — afinal, já basta a minha!

PS: Segundo o simpático senhor Fukai, dono de uma tradicional lojinha de doces de bairro, ainda existem pirulitos de coração no mundo.

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