Por Vanessa Henriques
Quando pequena, costumava ouvir de meus pais e parentes, ávidos por uma resposta capaz de enchê-los de orgulho, o que eu queria ser quando crescer. Não sei quem inventou de colocar esse tipo de pensamento na cabeça de crianças, mas o fato é que desde cedo somos obrigados a pensar o que vamos querer da vida.
A vida, porém, sabe o que quer da gente muito antes de nós chegarmos a alguma conclusão feliz, daquelas de encher os olhos de um pai de orgulho. Ela quer casa, quer comida, quer estabilidade, quer dinheiro. E por isso a maioria de nós não chega a realizar essas fantasias pueris, tão caras a nossa infância, mas tão distantes de nossa realidade enquanto adultos.
No meu caso particular, tinha sempre uma resposta na ponta da língua: quero ser moça-do-tempo. Dizia isso animada ao assistir a um telejornal e ver aquelas mulheres esguias e elegantes apontando para um mapa imaginário as probabilidades de um temporal de verão às seis da tarde.
Mas o que eu queria dizer com isso? Alguns podem pensar que eu queria ser meteorologista, o que um olhar apurado logo corrigiria, lembrando que a frase número um dessas moças é “segundo os meteorologistas…”. Seria então jornalista? E por que não gostaria de ser a Fátima Bernardes, sentada em sua bancada imponente e lendo todas as outras notícias, não apenas as relacionadas ao clima? Ou então queria dominar o Brasil, saber das chuvas em todos os confins desse enorme país?
Tenho certeza que se me fizessem todas essas perguntas à época, não saberia como responder. Eu não sabia o que queria, como toda criança deve ser. Dizia por dizer, talvez por admirar uma roupa colorida, pensando que ela poderia cair bem em minha boneca. Ou pela possibilidade de usar um bonito sapato de salto.
Cheguei à conclusão de que nada disso importa. O que eu sentia ao ver a moça-do-tempo era algo único, uma ilusão de vida adulta que já não mora mais em mim. Qualquer explicação contemporânea não dará conta de entender o que essa moça tinha de especial.
Mas quando me pego assistindo à televisão e vejo a nova moça — que já não tem o mesmo vestuário e trejeitos típicos dos anos 90 — não deixo de tentar entender o que eu via nela de tão especial. Ainda não cheguei a nenhuma conclusão, mas devo confessar que estou tendendo para a hipótese dos sapatos…
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