Viver sem ela é meu pior castigo

Por Vanessa Henriques

Hoje o dia começou bem. Eis que abro o jornal* e leio a seguinte notícia: o pagode dos anos 90 está de volta. Grupos que marcaram nossa memória — e se você duvida, veja como consegue completar o seguinte verso sem dificuldades: Te ganhei no paparico…. — com canções melosas e passinhos de dança coordenados estão completando décadas e preparando turnês comemorativas.

Essa vertente do pagode-coragem, que não tinha vergonha de pintar os cabelos de loiro platinado e usar roupas coloridas combinando, marcou uma geração que se não era fã, não conseguia parar de cantar seus refrões-chiclete. Essas lembranças hoje fazem a alegria das rodas de amigos que cresceram ao som de rimas ricas como coração-paixão e verdade-saudade.

Quando vejo os cantores de pagode de hoje tão arrumadinhos e universitários é impossível não se lembrar dos grandes mestres do pagode-moleque, com suas caras e bocas e seu número exagerado de integrantes — vale notar que os mestres do passinho-do-losango nem sempre eram músicos.

Não sei se essas turnês de retorno serão lucrativas, e me deixaria muito triste ver uma fama construída ao longo de toda uma década se esvair devidos aos fracos números de bilheteria. Também não sei se teria coragem de encarar duas horas de “hum-dê-rê-rê” só para garantir a boa fama desses moços.

O pagode marcou o coração de uma geração sem medo de se entregar a essa louca paixão e mergulhar num mar de emoção. É bem verdade que essa saudade tem um pouco da inocência da criança ao pensar nessa lembrança como algo bom. Mas veja bem, meu bem, isso são coisas do carrossel da vida, e essa ferida deve se curar com um gesto ou um olhar dos que só sabem amar.

* Publicado na Folha de S.Paulo, disponível em http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1259983-raca-negra-so-pra-contrariar-e-salgadinho-resgatam-pagode-dos-anos-1990.shtml

Respostas

  1. eu nunca fui muito fã de pagode, mas devido ao esforço dos meus vizinhos funkeiros em apresentarem seu gosto musical para o bairro todo, eu adoraria que o pagode e o axé voltassem a fazer sucesso e dominar caixas de som desses carros tunados…

  2. Ai sim hein! No mínimo é mais agradável.

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About the author

Sophia Bennett is an art historian and freelance writer with a passion for exploring the intersections between nature, symbolism, and artistic expression. With a background in Renaissance and modern art, Sophia enjoys uncovering the hidden meanings behind iconic works and sharing her insights with art lovers of all levels. When she’s not visiting museums or researching the latest trends in contemporary art, you can find her hiking in the countryside, always chasing the next rainbow.