Fio da Meada

Por Vanessa Henriques

Caligrafia é uma arte, dizia minha professora do primário. É preciso praticá-la, aperfeiçoá-la e até mesmo adorá-la até que ela se torne natural. Passado o susto inicial da alfabetização, quando você só se preocupa em entender o que esse tal de ‘a’ significa, passamos à árdua tarefa de fazer direito a curvinha desse mesmo ‘a’.

Os cadernos de caligrafia são o terror de qualquer pessoa nesse processo. São linhas e mais linhas daquele mesmo ‘a’ que insiste em sair do trilho. Tempos difíceis? Nem tanto, afinal muita gente trocaria de olhos fechados o trabalho atual por algumas sessões de caligrafia. Os referenciais mudam, e nosso ‘a’ também.

Com o tempo as lições da professora vão ficando esquecidas, lá no fundo da memória, e já nos aventuramos a todo tipo de impropério caligráfico: misturamos estilos de letras maiúsculas com minúsculas, não escrevemos em um só fôlego como fazem nossas mentoras, sem tirar o lápis do caderno até terminar a palavra, nem mesmo respeitamos o espaço ‘de um dedo indicador’ que marca o início de um parágrafo.

Somos mesmo uns rebeldes sem causa, dirão nossas professoras. E se não fosse essa rebeldia saudável escreveríamos todos da mesma maneira, sem imprimir nossos sentimentos e antipatias por certas regras e letras — eu particularmente detesto a letra ‘h’, que sempre causou transtornos por figurar no início de meu sobrenome.

Se for para escrever igual, melhor digitar no computador, assim fica tudo padronizado, certo? Errado, e aqui inicio uma teoria que poderá ganhar alguns adeptos. O texto concluído, diagramado e alinhado, esconde toda uma poesia que encantaria aquela professora do início desta prosa.

Não me refiro às curvas sem graça que a fonte Times New Roman imprime aos textos, mas sim ao processo anterior. Esqueça a caligrafia, vamos falar agora de datilografia. Esta palavra, que remete a cheiro de mofo aos narizes mais jovens, está na ordem do dia.

Nossos pais tiveram que aprender a datilografar, e se trancavam por horas em salas barulhentas aprendendo as melhores táticas para escrever pa-ra-le-le-pí-pe-do sem titubear. Nós, muito espertos, já nascemos sabendo digitar — e aqui tem início a mudança do vocábulo. Não passamos pelo caderno de caligrafia, fomos direto para a fase rebelde.

O que quero dizer, por essas tortas linhas que o Times New Roman insiste em alinhar, é que digitação também tem estilo. Há aqueles rapidinhos, que digitam com todos os dedos das mãos, e não olham um segundo para o teclado. Há o famoso ‘cata-milho’, que procura as teclas com a paciência de um pintinho despenado. E há também o meio termo, que se adaptou à tarefa em si, mas não possui o garbo e a elegância dos que foram treinados para ela.

Este texto esconde o seguinte: pertenço ao time do meio termo, afinal digito com alguma velocidade, mas sou uma clássica destra, já que minha mão direita explora todos os dedos disponíveis, enquanto a esquerda se limita a um veloz e solitário indicador. Só vendo para entender.

Mas ao menos uma coisa me consola: modéstia à parte, minha caligrafia sempre recebeu elogios.

Se você quiser tirar suas próprias conclusões, clique aqui.

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2 thoughts on “Fio da Meada

  1. Adorei o texto, divertido e interessante! Também faço parte do time do meio termo, mas minha mão esquerda é um pouco mais treinada, resultado das horas de jogatina virtual. E o `h` é uma ótima letra!

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