Nó cego

Por Vanessa Henriques

Não aconteceu numa sexta-feira como todos previam. Não estava chovendo, muito pelo contrário, era um dia de outono frio, porém ensolarado. Não era horário de pico, nem havia manifestação na Avenida Paulista, como se apressaram em concluir alguns. Mas aconteceu: São Paulo travou.

Não pense que travou como costuma travar todo dia, no nível que o paulistano resignado já toma como normal. E não havia nenhum acontecimento extraordinário na cidade. Foi um processo, quase imperceptível. Chegávamos um, dois, cinco minutos mais tarde do que o de costume. Nada alarmante para nós. Tivemos dias piores.

Mas lentamente, como uma manta tecida com paciência, ponto a ponto, a situação foi piorando. Os minutos se empilhavam, um em cima do outro, sem que percebêssemos seu peso sobre nossos ombros. Até que chegou o dia.

São Paulo travou como uma rotatória, na qual é preciso dar passagem a alguém para conseguir se mover. Mas ninguém deu passagem, e ficamos todos ali, presos num mar sem fim de veículos. Não tinha atalho possível, não tinha corredor exclusivo, não tinha para onde ir.

No começo todos imaginavam que havia algo logo ali na frente, que era passageiro. As estações de rádio não davam conta das ligações avisando sobre os locais de engarrafamento. Acionaram o helicóptero da polícia, e então veio a constatação: as luzes dos faróis pareciam não ter fim, formando um mar vermelho e branco até onde a vista alcançava.

Os passageiros e caroneiros levaram a melhor, sem dúvida. Sem perspectiva de melhora, andavam em bandos entre os carros. Não havia perigo, não teriam como passar por cima de ninguém. Andariam por horas, é verdade, mas chegariam a algum lugar.

Os motoqueiros conseguiram ir mais longe, trafegando pelo corredor formado entre os veículos, mas também tiveram dificuldade. Formou-se um corredor de motocicletas no próprio corredor entre os veículos. Muitos conseguiram desviar, mas o grande volume de motos e de carros impediu algumas manobras mais ousadas.

Com o avançar das horas, surgem os empreendedores. Vendedores ambulantes caminhavam entre os veículos e os pedestres vendendo água, suco, refrigerante, biscoito de polvilho e até bala de coco caseira. Lucraram alto aquele dia.

O que impressionava é que todos acreditavam que uma hora aquele pesadelo iria acabar. Mas certamente estava demorando muito… As notícias do rádio não eram animadoras: não havia previsão de melhora. Quem acompanhava pela televisão apenas assistia às imagens aéreas hipnotizado pela magnitude da situação.

No início da madrugada, tivemos as primeiras desistências. Motoristas de ônibus e cobradores, que já haviam cumprido seu horário, abandonaram o posto com alguma tranquilidade. Não sabiam se seriam substituídos pelos companheiros pela manhã, mas precisavam sair dali.

O movimento de pedestres e ambulantes diminuiu gradativamente, e os motoristas se entreolhavam admitindo a possibilidade de abandonar o posto. Estavam exaustos e sonolentos, não tinham se movido nenhum centímetro nas últimas horas e começavam a imaginar se valia a pena tanto esforço.

O dia amanheceu e pouca coisa mudou. Quase ninguém dormiu, pois temiam que um arrastão levasse dinheiro e celulares — afinal não teria como levar o veículo. Nenhuma notícia de melhora no rádio, e os helicópteros pouco a pouco reapareciam no céu.

As autoridades, pressionadas por respostas, se contradiziam, ora dizendo que a situação estaria sob controle, e depois admitindo a necessidade de ação imediata. Decidiram, após uma longa reunião, organizar o caos: seriam acionados terrenos no entorno da cidade (onde acaba esta cidade?) para alojar os veículos. Caminhões-cegonha fariam o transporte até esses grandes terrenos, só precisariam encontrar uma ponta neste novelo tão bem enrolado.

Um dia inteiro se passou, e outros vieram em sua cola. A imagem da cidade cinza, abarrotada, combinava com o céu triste daqueles dias. Mas a cidade do barulho, do ronco dos motores e da fumaça dos escapamentos estava calma e silenciosa. Nenhum grito, nenhuma buzina iria adiantar. O caminhão-cegonha viria, mas quando? Valeria a pena tanto esforço, tanto tempo, tanto cansaço?

“Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu”.*

*A Flor e a Náusea, Carlos Drummond de Andrade.

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7 thoughts on “Nó cego

  1. Essa profecia é realmente assustadora… certa vez li uma matéria a respeito de uma pesquisa sobre engenharia de tráfego e, segundo os autores, SP já tinha data e hora para travar…

      1. O Henrique fala uma coisa dessas e deixa a gente aqui curioso! rs
        Sobre a ampliação do rodízio… bom, estão contornando de todas as formas para não apelar para o pedágio urbano né? Ao menos é o que me parece…

  2. […] com um monte desde a primeira, passando por algumas como Candidata perfeita, O que você vai ser?, Nó cego, Vontades, CPF na nota? e Palco, além da ótima Fiat tenebris, mas vou eleger a Fechado para […]

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