Em busca de inspiração

Por Carlos  Augusto de Oliveira*

Alguém já diria que para se escrever um bom texto é necessário 10% de inspiração e 90% de transpiração (ou qualquer outra proporção que favoreça o suor no lugar da surpresa). Mal sabia o autor da célebre frase que todo esse suor está mais relacionado à busca de inspiração que propriamente ao desenvolver o trabalho…

Não sei se isso ocorre apenas comigo, mas na maior parte das vezes em que me pego enxugando a testa ou sendo surpreendido por uma gota que contorna meus olhos através de minhas sobrancelhas é quando estou justamente buscando uma “conjunção” de fatores para poder escrever: o lugar certo, a cadeira certa, a posição correta na cadeira, a posição correta da folha sobre a mesa, a condição meteorológica perfeita que avive os sentimentos desejados dentro de mim, a tranquilidade, a espontaneidade necessária, o dia em que o corpo tenha repousado devidamente mas que não esteja por demais relaxado e muito menos deveras agitado…

Quando tudo se encaixa perfeitamente o texto flui naturalmente, sem nenhum esforço. O grande problema é que na maioria das vezes isso não ocorre e a essa busca da melhor condição para poder escrever é o que eu chamo de inspiração. Apenas eu chamo isso de inspiração? Bem, não sei, mas quando digo que me falta inspiração é porque me falta algum desses fatores ou há uma força desconhecida que me impede de passar para o papel as ideias que sei que tenho (ou elas me têm?) mas as quais desconheço.

Há momentos em que o impedimento é parcial – é possível sentar-se na cadeira, olhar a folha diante de si e começar a dar forma a um texto, ainda que ao final olhemos para ele e não fiquemos satisfeito. Aliás, isso ocorre com frequência.  Quantos textos já não foram amassocados e jogados na lixeira assim?

Por vezes não há o que se fazer, não adiante remar contra a maré e se forçar a criar um texto que não queira ser escrito. O escritor não é o dono das palavras, ele apenas dá forma àquelas que querem vir ao mundo, e uma vez escritas, quando o ponto final finaliza o texto, ele ganha vida e o autor já não tem mais o controle sobre ele. É por isso que muitas vezes o papel é melhor aproveitado tornando-se uma bolinha a ser arremessada no lixo.

Os antigos tinham a vantagem de contar com as musas, hoje, no entanto, somos obrigados a pelear sozinhos com as palavras e só quando entendemos que elas sempre nos vencem que nos damos por satisfeitos. É realmente uma relação complicada e nada ortodoxa, mas é a mais pura verdade. Sempre olhamos o texto ao final e vemos que não era bem aquilo que tínhamos em mente quando começamos a rabiscar as primeiras letras, no entanto elas estão lá, dispostas da maneira que foram dispostas, confortáveis, sorrindo maliciosamente para o leitor da vez.

A vida que emana do texto é uma caixa de pandora, em que mil males são dispersos, mas resta-nos a esperança de que ainda assim o leitor saia satisfeito. Quem sabe para o leitor inspiração não seja outra coisa e o próprio texto possa servir seu propósito de inspirar?

*Carlos é professor, geógrafo e meu porto seguro.

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2 thoughts on “Em busca de inspiração

  1. Inspiração é traiçoeira, é benção e maldição. Chega e se vai num segundo, e se você não aproveita… é capaz de ficar olhando um tempão para uma folha em branco aguardando a sua volta!!!

  2. Muito bom! Pelo menos esse drama não é exclusividade da minha vida. No meu caso, a dificuldade para escrever é tanta que as vezes pareço precisar de um pontapé divino. Um texto inspirador!

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