Nessa data querida

Por Andréia Henriques*

Nunca fui muito fã de aniversários e não sei bem o por quê. Procuro na infância para checar algum trauma e nada. Vejo fotos de comemorações compartilhadas com minha irmã mais velha, velas da Turma da Mônica, bexigas, fotos, festas na garagem de casa com pessoas da família que não sei nem o nome. Tudo dentro da normalidade, ou aquilo que se espera desses dias.

Fato é que meus aniversários sempre têm alguma coisinha para contar. Teve um, ainda no cursinho preparatório para o vestibular, em que uma amiga ficou com um menino que era o amor da vida de várias outras. Brigas, escândalos e babados na certa. Tudo no dia 22 de julho.

Em outro ano, mais recente, o namorado preparou uma festa surpresa, da qual fui avisada por e-mail por uma das ajudantes da organização, uma amiga estabanada, uma semana antes.

Não sei se porque a minha data cai no meio das férias escolares, minhas festas nunca foram lá muito populares ou lembradas, coisa que acontece até hoje, reflexo da falta de popularidade da aniversariante. Daí depois disso é tudo ladeira abaixo. Aquele constrangimento na hora do parabéns, não se sabe se batemos palma ou se olhamos pras fotos horrendas que ficarão para a posteridade.

O pior vem depois: se ninguém der uma de engraçadinho com o “com quem será”, certamente um familiar vai vir com aquela coisa mais que embaraçosa de dar o primeiro pedaço de bolo para quem, supostamente, você mais gosta. E aí? Dar para a sua avó? Madrinha? Mãe e pai? Ou a irmã com a qual você divide o quarto e a vida? Atualmente me faço de besta: corto o bolo e deixo o privilegiado primeiro pedaço ali do lado, na pequena área. Quem pegar, pegou e é gol. Pode se sentir o mais amado pela aniversariante.

Minha irmã conseguiu uma façanha do constrangimento das festinhas: ao receber um efusivo “parabéns” de um familiar, decerto achou que era Natal e mandou um “pra você também!”.

Comprar presente é o maior dos suplícios. Aquelas pessoas para quem eu nem ligo, encontro presentes sensacionais, perfeitos. Mas quanto mais eu gosto de alguém, mais difícil a coisa fica. Quero dar a coisa mais incrível, a nunca pensada antes, a pioneira, inovadora. A que vai fazer a pessoa se desmanchar em lágrimas. Mas isso é impossível, claro. E no fim só dou presentes inúteis, repetitivos e bobos. Alguns são clássicos.

O melhor é que tem pessoas iguais: minha irmã uma vez me deu uma blusa azul que, um dia antes, vi a dita cuja em uma vitrine e fiquei por horas falando como ela era horrível. O caso da blusinha azul serve até hoje como uma metáfora de presentes ruins.

A consequência disso tudo é que emprego a mesma displicência e negligência que tenho com meu aniversário nos dos outros. No mais recente, comprei o presente do meu namorado no mesmo dia do aniversário dele. Nada fora do comum: na época do cursinho, veja só, o aniversário da minha irmã caía no dia ou muito próximo à data da principal prova de São Paulo, a Fuvest. Solução: emendei dois presentes e entreguei no Natal. São tantas mancadas que nem lembro (e é melhor mesmo, para não despertar mágoas adormecidas).

Mas tenho um orgulho: a mais peculiar história de aniversários, ao menos na família, não é minha. A dona desse blog, também não a maior admiradora de festinhas, resolveu um belo ano fazer uma festa na nossa casa, coisa inédita. Chamou todo mundo da escola, coxinhas na mesa, sanduíches, videokê garantindo a cantoria. Comparecimento de algumas pessoas, não muitas, mas já um recorde que parecia mostrar que tudo ia correr bem. Só faltou lembrar que era na nossa família.

Nossa casa, bem antiga, havia sido faz tempo infestada por ratos. Isso mesmo, e eles resolveram aparecer para comemorar naquele dia, a noite, entre um “fio de cabelo” e “meu erro” no videokê. As meninas gritavam de medo, os meninos acharam o lugar onde ficavam as vassouras e os rodos e saíram à caça dos roedores. Os cachorros, presos, iam à loucura. Os meninos correndo de um lado pro outro (pensando bem, eles devem tem achado a festa o máximo… diferente, inusitada, selvagem! Eu acharia!), as meninas reféns dentro de casa e certamente responsáveis por depois espalhar o vexame por toda a escola. Bizarro no dia, engraçado hoje. Coisas de aniversários…

PS: Esse texto foi escrito muitos dias depois do requisitado, começado depois da meia noite, finalizado no saguão de um aeroporto e entregue com vários pedidos de desculpas. Porque assim como a compra dos presentes, tudo o mais na vida também deixo para a última hora. Mas a crônica, ou seja lá o que saiu isso, foi feita para comemorar um ano de um projeto da pessoa que, antes mesmo de nascer, já tinha um de seus presentes mais legais, uma casa do Meu Querido Pônei, afanada por mim.

 

* Andréia Henriques é jornalista, assessora e com quem divido meu quarto e minha vida.

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2 thoughts on “Nessa data querida

  1. […] “Nessa Data Querida tem um estupendo relato de Andréia Henriques no que se refere, diria dona Dilma, a festas com a presença de videokês, meninos, meninas, ratos e rodos, não necessariamente nesta ordem, hehehe. Muitos anos de vida ainda ao croniquices.” […]

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