A arte aromática da guerra

Por Alexandre Ortolani de Aquino*

Quem seriam meus exigentes leitores que sequer existem? Frente às excitantes possibilidades, destaca-se uma base amostral que, mais do que eventualmente ler o que escrevo, faz parte da minha rotina. Não se trata apenas de interferir no sinal da televisão. Um sentimento pouco nobre entre meus vizinhos despertou entre eles uma distinta e saborosa habilidade, que extrapola os limites da boa convivência.

Arrisco-me a afirmar que estou – literalmente – cercado de grands chefs de cuisine, para usar uma expressão do pequeno príncipe Ronnie Von. E como todo grand chef, meus leitores em potencial não abandonam suas extravagâncias. Dentre elas, uma que se destaca no ar: a inveja. Não me olhe assim, grand chef lecteur, a culpa de sua inveja é do laissez-faire imobiliário.

Meus afrancesados leitores ainda não sabem, mas o diretor Rob Minkoff, de Stuart Little, se inspirou na minha casa para adaptar a casa dos Little às telonas. Estou cercado por centenas de janelas, e mais algumas centenas vem aí, frutos de um vale-tudo especulativo para Anderson Silva nenhum botar defeito. Se no entanto esteticamente a adaptação de Minkoff ficou boa, a complexidade humana de um tal apinhamento urbano apenas é bem alcançada pela Janela Indiscreta de Hitchcock. São olhares curiosos todos os dias vigiando e contando meus atos e as acerolas que caem do pé. Indignados com tamanho privilégio em um mundo onde espaço útil é medido em centímetros – sim, eu tenho um quintal –, por décadas tive de conviver com o arremesso de objetos constrangedores sobre minha casa. Hoje em dia os tempos são outros. A revolta condominial conscientizou-se e os ataques, sofisticaram-se. Antes a motivação era a grosseria, hoje é a inveja.

As bitucas do cigarro libertário já não me estressam mais. Este, acreditem, é o menor dos problemas da sociedade pós-comerciais-de-cigarro-na-tevê. Difícil mesmo é conviver com centenas de rotinas diferentes: as pessoas cozinham 24h por dia. Um escândalo, diria minha tia do interior que às17h30 já lavou as panelas que preparou o jantar. Até de madrugada? Sim, bife acebolado.

Se as almas enjaneladas com as quais convivo já não se apegam mais à lida doméstica, estou certo, nunca cozinharam tanto. A culpa é do Clinton, sagaz lembrança, que proibiu a propaganda de cigarros na tevê. O jeito é anunciar utensílios de cozinha. Se as pessoas estão obesas, a culpa é do Clinton.

Mas como podem estas almas trabalhar tanto, fumar tanto e ainda assim cozinhar tanto? Eu também não sei, segredos da engenharia de alimentos que a Polishop guarda a sete chaves. O fato é que o fazem e com requintes aromáticos de crueldade.

Aromatormento para qualquer um, ainda bem que o brasileiro come menos peixe do que deveria. Basta o primeiro contato da sardinha com a frigideira para que todo um bairro – uma nação quiçá – sinta o mesmo gosto que você. Sardinha é arma de destruição em massa. Já o comuna feijão invade lares também com o popularesco hit “Tchá Tchá Tchá”, imortalizado nas vozes de Thaeme e Thiago. Procure no Youtube! Uma emocionante ode à panela de pressão.

Muito presente nas mesas de meus vizinhos também o bife acebolado desperta água na boca. Frigir da cebola aliado ao imaginário filet mal passado cujo aroma, esse sim muito real, é pura agressão àquele que precisa de concentração para trabalhar.

Especialidade da vizinha do 33 lado noroeste, a feijoada desperta atenção generalizada. Atenção essa comparável ao escondidinho de carne seca com o qual volta-e-meia a vil cidadã do 21 leste agrada seus rechonchudos netos.

Amarga – para não dizer irresistível – lembrança é o Fettuccine al Pesto di Rucola daquele cuja janela eu prefiro esquecer.

O inseguro Sr. de meia idade cuja identidade será preservada especializou-se na arte gastronômica para despertar a paixão de sua jovem esposa. Uma complexa trama aromática de temperos bem selecionados emana daquela janela que com eloquência nos lembra: aqui os congelados não tem vez. Jogo sujo.

Cheios de rancor, ataques generalizados em dias de jogo: é dia de pipoca. A invasão de cheiro ocorre por todos os flancos. Alguns espíritos pequenos chegam ao ponto de se debruçar na sacada, a latinha de Guaraná ao lado, para que aquela imagem cumpra o que o popular aroma talvez deixe a desejar.

Envoltos em alho e manjericão, os congelados aparentemente padecem entre meus pecadores vizinhos. Trata-se, sem dúvida, da arte gastronômica destinada a fins malignos. Afinal de contas – e os vizinhos do flanco norte sabem muito bem – eu também tenho minha janela e passo grande parte de meus dias em frente a ela, trabalhando. Neste momento cinquenta janelas vigilantes observam este que pode ser meu primeiro contra-ataque.

Tenho resistido com água na boca às deliciosamente cheirosas agressões perpetradas por uma clara política aromática que exala afrontas degustativas a um sem número de pactos gastronômicos internacionais. Em outras palavras, isso não se faz! Com mais algumas centenas de janelas conquistando o horizonte excessivamente próximo do meu lar, o flanco sul será em breve mais uma frente de ataque. Não me resta, frente às perspectivas, outra alternativa que não o contra-ataque: a churrasqueira. Por décadas abandonada nos escombros da falta de privacidade, vejo-me obrigado aplicar, com ela, a milenar técnica da nuvem de irresistível sabor que é, até hoje, a arma mais temida por todas as famintas cortes internacionais de direitos humanos. Arma de destruição em massa temida até por iraquianos, as janelas invejosas que me cercam conhecerão o poder dela, a nuvem de sabor do esfumaçante churrasquinho na laje.

Nesta busca por culpados e vingança, a laje, propriamente, será poupada. Penso que pagode e mulatas também são dispensáveis. Um ataque de tal monta costuma deixar sequelas a quem o faz. Quem sabe até a alegria dos amigos, a gozar 100m² de liberdade, seja poupada. Já a nuvem enchurrascada de sabor, meus vizinhos leitores terão de lidar com este terrível ataque com água na boca.

30 de junho de 2013

Nota

Este texto foi feito sob encomenda. Como poucos sabem, escrevo para ninguém. Melindrada, minha inspiração possui um único amigo: ninguém. No mais, é absolutamente avessa a cobranças. Mas o convite estimulou minha inspiração a dar o ar da graça para me ajudar a responder: não sendo mais ninguém, quem seria esse alguém?

* Alexandre é geógrafo, erudito e um ótimo escritor, ainda que refém de uma inspiração teimosa.

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4 thoughts on “A arte aromática da guerra

  1. Sinestésico texto! Como tratar de tanta coisa em tão pouco espaço?! Culinária, programas de televisão, cinema, especulação imobiliária, análise sociológica, rs. Só você, meu, caro! Parabéns.

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