Por Vanessa Henriques
Toda vez que engulo um caroço, lembro de minha mãe. Ela sempre dizia, quando era pequena, que quando engolimos um caroço ou uma semente (no fundo, é tudo a mesma coisa) nasce um pé dessa fruta em nossa barriga.
Isso explicava algumas coisas à época. A vizinha ficou barriguda porque engoliu um caroço de melancia, e como todos sabem, melancia é redonda e a barriga dela ficou grande e redonda também. Onde a cegonha e o bebê entrava na história nunca ficou muito claro, mas isso são detalhes de importância menor.
O fato é que engoli uma enormidade de sementes no decorrer dos anos. Portanto pés de mexerica, laranja, banana, maçã, mamão, melancia, melão, pêra e uva crescem em meu estômago, todo ano mais um pouquinho, formando uma imensa e tropical floresta.
Mas do que adianta ter todos esses nutrientes na barriga sem ter passado pelo meu paladar? Do que adianta cultivar todo esse pomar se não posso sentir o cheiro da fruta madura e o gosto doce que ela deixa na boca?
Essas perguntas permanecem sem resposta, assim como a existência ou não desta floresta. Talvez um ultrassom completo tirasse algumas dessas dúvidas, mas que graça teria isso? Prefiro continuar alimentando essa terra fértil com uma ou outra sementinha.
E já posso riscar alguns itens da lista de coisas a fazer: plantei várias árvores e escrevi algumas crônicas (que podem ser confundidas, lá de longe, como o esqueleto de um livro). Quanto ao filho… Bom, isto é simples, basta comer uma grande e saborosa melancia.
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