Semente

Por Vanessa Henriques

Toda vez que engulo um caroço, lembro de minha mãe. Ela sempre dizia, quando era pequena, que quando engolimos um caroço ou uma semente (no fundo, é tudo a mesma coisa) nasce um pé dessa fruta em nossa barriga.

Isso explicava algumas coisas à época. A vizinha ficou barriguda porque engoliu um caroço de melancia, e como todos sabem, melancia é redonda e a barriga dela ficou grande e redonda também. Onde a cegonha e o bebê entrava na história nunca ficou muito claro, mas isso são detalhes de importância menor.

O fato é que engoli uma enormidade de sementes no decorrer dos anos. Portanto pés de mexerica, laranja, banana, maçã, mamão, melancia, melão, pêra e uva crescem em meu estômago, todo ano mais um pouquinho, formando uma imensa e tropical floresta.

Mas do que adianta ter todos esses nutrientes na barriga sem ter passado pelo meu paladar? Do que adianta cultivar todo esse pomar se não posso sentir o cheiro da fruta madura e o gosto doce que ela deixa na boca?

Essas perguntas permanecem sem resposta, assim como a existência ou não desta floresta. Talvez um ultrassom completo tirasse algumas dessas dúvidas, mas que graça teria isso? Prefiro continuar alimentando essa terra fértil com uma ou outra sementinha.

E já posso riscar alguns itens da lista de coisas a fazer: plantei várias árvores e escrevi algumas crônicas (que podem ser confundidas, lá de longe, como o esqueleto de um livro). Quanto ao filho… Bom, isto é simples, basta comer uma grande e saborosa melancia.

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3 thoughts on “Semente

  1. Muito bom! Lembrei-me que, quando éramos crianças, sempre ríamos muito quando engolíamos uma semente, imaginando, por exemplo, um pé de mexerica saindo pelos ouvidos. Se o estômago é “fértil”, a imaginação é muito mais!
    Um final de semana prolongado “superlegal” pra você!

  2. Tá vendo, Vanessa, a diferença entre ser erudito e ser criativo e cheio de imaginação? Essa leveza é o que mais nos falta. Você poderia discorrer um pouco sobre o pé de couve que cresceria no ouvido caso não se lavasse bem o ouvido! Ah, que medo!
    Adorei o texto.

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