Três minutos

Por Vanessa Henriques

E lá estavam eles: apaixonados e esfomeados. Coisa na geladeira até tinha, mas a preguiça abundava fora dela. “Que tal um miojo?”, sugeriu ele, em tom de descoberta após vasculhar o armário em busca de algo prático. “Perfeito!”, retrucou ela, completando: “mas vamos dividir um, não estou com tanta fome”.

“Deixa que eu faço”, disse ele em tom galanteador. Ela assentiu com os olhos, e foi dar uma volta pelo apartamento. Olhou pela janela, poucas estrelas no céu. Voltou para a cozinha, encostando-se na pia e quebrando a pontinha do macarrão. “Você gosta de comer um pouquinho dele cru?”. Ele deu de ombros: “gosto, mas nem sempre como”. Ela estranhou, mas não comentou nada.

Passaram para as decisões cruciais:

— Você gosta de deixar aquele caldinho ou mais seco? — ele começou.

— Mais seco, mas não muito. Aliás, você deixa só três minutos ou mais?

— Acho que sim, mas nunca parei para cronometrar. Deixo cozinhar um pouco e desligo. E você?

— Deixo uns dez minutos ou mais… Acho que fica estranho se não cozinha muito — o olhar era de desprezo pelo pobre macarrão que havia comido puro há alguns minutos.

Ele prosseguiu com os trabalhos, sem tecer novos comentários. Após alguns minutos (e nem sob tortura esse narrador revelaria quantos), ela interveio:

— Já não está bom?

— Não… Tem que secar um pouco mais.

— Pra quem é partidário dos três minutos, acho que você está mudando de lado… — disse ela com um sorriso malicioso.

— Quem tá secando o macarrão é você com esse olho gordo! Vai ajeitando os pratos aí na mesa enquanto eu finalizo.

Ela colocou os pratos, os copos, os talheres e um descanso de panela. Sentou e abriu o guaraná, enquanto ele pedia licença e apoiava a panela fervilhando. Dividiu pela metade, e quando finalmente ela finalmente achou que poderia ter paz, veio a pergunta:

— Você não vai temperar? — exclamou ele, exasperado.

— Ainda não está temperado?

— Não! — respondeu enquanto mexia o macarrão, contrariado. Como você costuma fazer?

— Coloco ainda na panela, depois de desligar o fogo.

Ficou parada, pensando no episódio, para depois concluir:

— Incrível como podemos conhecer uma pessoa só pelo jeito dela fazer miojo, não é mesmo? — tinha agora o ar de descoberta de outrora.

Impaciente e faminto, ele encerrou o assunto:

— Pois é, não esquece de perguntar para o seu próximo namorado como ele costuma fazer miojo.

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3 thoughts on “Três minutos

  1. Bom… pensei, pensei e acho que a culpa toda é do miojo. Miojo não é coisa boa! Foi ele que causou essa desarmonia. Só pode ser!

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