Crosta

Por Vanessa Henriques

Esta semana li em uma revista um artigo que contava a história de um coveiro que também era escritor. Francisco Pinto de Campos Neto, ou Tico, como é conhecido, já havia publicado dois livros, e estava trabalhando em um terceiro.

A reportagem descrevia a história do coveiro, que já havia trabalhado em uma série de empregos, morado na rua e se internado diversas vezes em instituições de recuperação devido à dependência química. Sua sorte mudou quando apostou no concurso para sepultador e, no mesmo ano, foi acolhido pelo criador do Sarau do Binho — projeto que busca valorizar artistas das periferias paulistanas —, conseguindo publicar seu primeiro livro.

Os personagens criados por Tico são descritos pela reportagem como ‘criaturas atormentadas’, reflexos prováveis da experiência do autor. Este se posiciona a favor da luta antimanicomial, além de criticar a massificação de remédios tarja preta. Na ótima definição do entrevistado, “você sai de qualquer posto de saúde com [medicação] tarja preta. O Binho costuma falar que qualquer farmácia é uma biqueira [ponto de venda de drogas]. E deve estar dando lucro, porque fica aberta 24 horas”.

O empregador do coveiro, administrador do Cemitério da Consolação, desconhecia seu talento, mas saiu pela tangente afirmando que no cemitério estão enterradas diversas personalidades do mundo da cultura, portanto contar com um ‘sepultador-escritor’ fazia todo o sentido.

Assim como Tico, outros autores mantiveram seu trabalho enquanto dedicavam-se à escrita nas horas vagas — seja por necessidade, gosto ou distração. Muito deles, aliás, ocupavam cargos públicos, como é o caso de Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade e Cartola, para ficar com alguns exemplos.

Drummond chefiou por muitos anos o gabinete do Ministério da Educação e Saúde Pública, sendo inclusive questionado por sua participação na política durante a ditadura do Estado Novo. Cartola trabalhou como copeiro do Ministério da Indústria e Comércio após o fracasso de um restaurante aberto em conjunto com a mulher, o Zicartola.

Aqui por essas bandas, também eu sou servidora pública, “com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor”, como diria Manuel Bandeira. E conheço alguns colegas que, assim como Tico, Drummond e tantos outros, possuem talentos incríveis que se escondem por trás de repartições cinza: um advogado sambista, que compõe nas horas vagas, uma administradora que escreve poemas, e tantos outros que eu não conheço o suficiente para contar nessas linhas.

Se por um lado me entristeço pensando no quanto estamos perdendo ficando aqui trancados em salas de iluminação artificial, escrevendo ofícios e memorandos, não sou ingênua a ponto de achar que poderíamos sair daqui e viver destas habilidades muitas vezes escondidas. Prefiro pensar que cada um de nós possui talentos obscuros, muitas vezes invisíveis à superfície, que conhecemos apenas quando paramos para conversar e conhecer melhor os que estão à nossa volta.

Assim como a terra, escavada todos os dias por Tico, nós também possuímos superfície e camadas: uns mais fundas, outros mais férteis, e assim por diante. E todos temos histórias para contar, seja na forma de música, escrita, poesia ou como entender melhor.

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5 thoughts on “Crosta

  1. A esperança é de que em algum momento poderemos dedicar mais tempo a busca destas habilidades escondidas e menos ao muitas vezes angustiante serviço público rs. Muito boa a crônica!!!

  2. Há flores que ficam em dormência durante algumas estações do ano até que chega o momento, a temperatura, a chuva e, finalmente, florescem. Imagino a vida parecida com isso.
    Vamos vivendo… Há de chegar a hora de florescer…
    Adorei o que escreveu!

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