Travessias*

Por Vanessa Henriques

Costumo dizer que antes de começar a conduzir qualquer veículo, as pessoas deveriam passar por um estágio probatório como pedestres. Isso porque é muito fácil se esquecer do frágil transeunte quando se está pilotando um carro, um caminhão e até mesmo uma bicicleta.

Não que eu considere andar a pé um castigo, muito pelo contrário. Caminhar é, para mim, uma forma de reflexão, de manter-se aberto ao que acontece ao nosso redor. Ao contrário do passar, paramos para observar, por mais que as pernas continuem seu trajeto.

Conheço pessoas que, por incrível que pareça, não exercem sua função de pedestre por mais de um minuto. Saem de casa, pegam o elevador, entram no carro e só saem quando já estão em outro estacionamento. Esse minutinho se restringe a descer do carro e ir à farmácia, ou então parar no posto de gasolina para calibrar os pneus.

Fica difícil para alguém que não vive essa experiência entender o que passamos quando caminhamos a pé pela cidade. Assim como eu não sei o que um motorista de ônibus enfrenta todos os dias, ou o que um motociclista encontra pelo caminho.

Imagina só que desastre seria se todos os condutores esquecessem os pedestres? Se não reconhecessem suas limitações e dificuldades, bem como desrespeitassem seu espaço para locomoção? Não é preciso dizer que eles são maioria, e encontrariam imensas dificuldades.

Mas a recíproca também deve ser verdadeira: o pedestre também deve colocar-se no lugar dos demais condutores na hora de andar pelas ruas e avenidas. Afinal, lutar por nossos direitos envolve, também, conhecer nossos deveres.

Eu mesma, há um tempo, não havia me dado conta disto. Nem sempre atravessava na faixa, desrespeitava o farol de pedestres e obstruía a passagem. E achava que a culpa era sempre do motorista, que não respeitava quem está a pé.

No entanto, foi preciso um susto para refletir que não cumpria com meu papel de pedestre da melhor maneira possível: ao cruzar uma avenida, precipitei-me atravessando antes de o farol abrir, e quase fui atingida por um ônibus que seguia seu trajeto.

A partir daí, percebi que não adianta apenas criticar a postura dos outros sem adequar nossa própria conduta. O pedestre também tem muito que aprender e contribuir para a locomoção urbana.

E, quando muda de lado, seja conduzindo, de carona ou passageiro, deve lembrar-se de sua caminhada, e o que aprende com ela todos os dias. Desta forma, podemos construir um trânsito mais humano e gentil. Basta colocar-se no lugar do outro.

*Este texto foi escrito para o 5ª Prêmio CET de Educação de Trânsito. Como saiu o resultado hoje, publico o texto. Não é o dos meus preferidos, mas ao menos o blog não fica abandonado essa semana.

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