Fiat tenebris

Por Vanessa Henriques

E de repente, puft! A luz acabou!

Todos parados, por um minutinho, aguardando para ver se é só uma piscadela ou uma falta de luz considerável. Passou de dez segundos, já dá pra relaxar. Oito… nove… dez! É oficial!

Usamos a luz do sol, de lampião, de vela, até chegar à luz elétrica, mas tem dias que daríamos tudo para que ela fosse embora, nem que fosse por umas horinhas. Sabendo disso, inventaram essa porcaria — ou maravilha, depende do ponto de vista — chamada no-break, que impede que os computadores desliguem com uma queda de força. E se tem computador, nem adianta argumentar: tem que trabalhar.

Quando acaba a luz sempre me lembro dos tempos de colégio, quando todos gritavam em êxtase ao menor sinal de escuro. Assobios, gritos e olhos esbugalhados se perdiam pela escuridão, que respirava aliviada por ter se livrado daquela aula chata de matemática.

No trabalho, tem que ter um pouco mais de decoro — nem que em sua mente a criança pentelha esteja pulando e saindo gritando pelos corredores. Fazemos aquela cara de “poxa, queria tanto trabalhar, mas né, não tenho como…” em frente ao chefe. E fazemos planos escondidos, pensando que maravilha seria antecipar o happy hour.

Em casa, os efeitos são mais perversos. Às vezes tudo que queremos é ficar no sofá, vendo televisão, ouvindo música e checando os e-mails, tudo ao mesmo tempo. Acaba a luz e ficamos ali, prostrados, sem saber o que fazer. Saímos pelos cômodos acendendo os interruptores, e quando finalmente resolvemos dormir, entediados pela falta de entretenimento, a luz retorna cegando nossos olhos sonolentos.

A luz, e seu oposto, as trevas, despertam em nós sentimentos ocultos e obscuros, mas desse assunto já se encarregaram os poetas e pintores. Minha reflexão é de botequim, mas é honesta: a falta de luz nos desconecta das coisas, e nos obriga a se reconectar ao mundo. E nós andamos tão afastados desse mundo… É fácil manter-se alerta, online, atarefado. Difícil mesmo é arranjar tempo para brincar de criar sombras na parede.

Por isso toda vez que ouço aquele estrondo surdo, acompanhado pela imobilidade momentânea e a esperança de que seja só um susto, ou uma tarde inteira, penso naquelas crianças rindo à toa, gritando, correndo pelo escuro, livres das tabuadas, equações e todas as outras obrigações chatas desse mundo, se esquecendo, nem que por alguns minutos, que tudo isso uma hora há de voltar.

E a luz volta. As crianças e adultos se aborrecem, mas não tem jeito. Acabou a desculpa para se divertir. As lâmpadas podem falhar, mas a vida funciona a no-break. E por mais que as luzes sejam sinônimo de ilustração e conhecimento, eu fico com as trevas dos meninos.

Respostas

  1. Olha, cada dia melhor! Você sabe que acabou a luz duas vezes esse mês? Uma dela, por volta das 16h, de modo que a noite se aproximava e ficava a excitação: será que mergulharemos no breu junto com a noite? Como é isso? O que um ser humano faz em uma noite sem luz? Existe vida sem luz? E o misto de alegria e culpa…

  2. Parece cada dia mais difícil viver sem energia elétrica. Disse-nos uma professora um dia (ops, uma noite) sem luz – aula de didática (chata!): “Aproveitem a falta de luz externa pra fazer iluminar a interna”. Naquela época…naquela idade, ô coisa difícil!
    Agora com tanta tecnologia, e a nossa dependência dela, parece quase impossível.
    Muito legal o que escreveu; em especial, gostei muito do último parágrafo.

  3. Esses dias ficamos sem luz duas vezes no trabalho (e, diferentemente do meu anterior, aqui não tem gerador uhuuu!!). O pior foi ter que subir 9 andares heheh!! No outro dia, uma SEXTA-FEIRA, acaba a luz no meio da tarde. A previsão da Eletropaulo era que ela voltasse às 19hs. Alegria geral… Estávamos quase prontos para ir embora, duas horas depois de espera e de um olhando pra cara do outro, e eis que a luz volta, umas 16hs… Vc pode imaginar como foi horrível!!! heheh Beijoss

  4. acabei de eleger o meu preferido de todos! esse aqui é puro ❤ ❤

  5. Acabar a luz no trabalho ou na aula de didática é o sonho de todo mundo!! rs
    Lá em casa costumava faltar luz toda hora, estavam mexendo na fiação… foram muitos sábados de vazio e reflexão, que acabaram culminando neste texto!

  6. […] Candidata perfeita, O que você vai ser?, Nó cego, Vontades, CPF na nota? e Palco, além da ótima Fiat tenebris, mas vou eleger a Fechado para balanço, é a mais bonita na minha […]

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About the author

Sophia Bennett is an art historian and freelance writer with a passion for exploring the intersections between nature, symbolism, and artistic expression. With a background in Renaissance and modern art, Sophia enjoys uncovering the hidden meanings behind iconic works and sharing her insights with art lovers of all levels. When she’s not visiting museums or researching the latest trends in contemporary art, you can find her hiking in the countryside, always chasing the next rainbow.