Eu mandava ladrilhar

Por Vanessa Henriques

Saber o nome da rua onde mora é um passo importante na vida de uma criança. Essa informação a enche de orgulho e liberdade. É como se pensasse, em sua inocência pueril, que mesmo que estivesse perdida, poderia dizer para o primeiro que passasse pela frente: eu moro na Rua Bom Pastor, como eu chego lá? Ou, mais provável, como se o nome da rua indicasse qualquer coisa parecida com um lar.

No meu caso, não só saber o nome da rua era importante. Eu memorizava o caminho da escola até em casa, o qual percorria de carro com minha mãe, e sempre pensava que se um dia meus pais me esquecessem na escola — não sei bem porque, mas era um pensamento recorrente — eu voltaria a pé, pois conhecia o caminho.

Morei da infância até a adolescência na Rua Ari Barroso, uma rua em formato de ferradura escondida nos confins da Região Metropolitana de São Paulo. Mas demorei muitos anos para descobrir quem foi Ari Barroso e a importância de sua Aquarela do Brasil, com a qual tive contato na escola — a essa altura não só sabia voltar a pé pra casa, como também conhecia as linhas de ônibus que passavam por ali e que me deixariam muito mais rápido em meu destino.

 A roda da vida girou, e eu fui amarrar minha rede em outro coqueiro que desse coco. Fui parar, a contragosto, na Rua Carlos Steinen, com esse nominho chato de pronunciar na hora de fazer qualquer cadastro, agora já bem próxima ao centro de São Paulo.

Se por um lado demorei a me interessar por Ari Barroso, de cara busquei saber quem foi Carlos Steinen. O dicionário de ruas da prefeitura foi taxativo:

                 “Karl von den Steinen, grande etnólogo alemão, dedicou-se apaixonadamente a etnologia e etnografia brasileira, tendo deixado valiosas obras   sobre os nossos ameríndios. As suas viagens pelo Brasil deram novos rumos as nossas pesquisas no campo daquelas ciências. Ao lado de Martius, Koch Chunberg, Paul Ehenreich e outros, pode ser considerado como um dos beneméritos da etnografia brasileira”.*

Respirei aliviada pela adoção do nome aportuguesado do “grande etnólogo alemão”, afinal poderia ser bem mais difícil preencher cadastros se não fosse desta forma. Aliás, a primeira conexão entre as duas ruas surgiu aí, já que as duas trazem uma grafia errada: Ary Barroso se escreve com ‘y’, e Carlos Steinen lembra remotamente o nome original em alemão.

A segunda conexão veio pela paixão pelo Brasil: Steinen contribuiu para o avanço da etnografia e etnologia brasileira, enquanto Ary ficou conhecido por seus sambas de exaltação ao nosso povo e a nossa terra. Cada um a sua maneira buscou compreender as origens desse lugar que chamamos de lar.

Entre Ari e Carlos (ou entre Ary e Karl, se o leitor assim preferir) me criei. Entre o caminho manjado da escola pra casa, ou os novos caminhos pelo meio da cidade, acabei por me encontrar. Ou, ao menos, aprendi a me perder e voltar correndo para seus braços.

 

*Dicionário de Ruas. Disponível em: http://www.dicionarioderuas.prefeitura.sp.gov.br/PaginasPublicas/ListaLogradouro.aspx

Consulta em 09/09/2013.

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6 thoughts on “Eu mandava ladrilhar

  1. Acho que você não se lembra, mas e quando o número da Ari Barroso subitamente mudou?? de 332 para 350…. Foi tão estranho… parecia que tudo tinha mudado!! Lindinho o texto!! =)

  2. O texto não é só bonito, mas também ensina! Agora eu posso dizer que sei quem foi Carlos Steinen. E, “de brinde”, que Carlos é nome de origem germânica que significa… Bom saber!

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