Embrulhar o peixe? Nem pensar…

Por Vanessa Henriques

É difícil encontrar um sujeito que não sinta uma simpatia natural por bancas de jornal. Elas são práticas, úteis, ocupam pouco espaço e, de quebra, dão um charme ao nosso caminho. Muito se fala sobre o fim das bancas, dos jornais, do papel, etc desde o advento da internet, mas o fato é que nada disso sumiu, para o alívio coletivo.

Ainda assim, é preciso adaptar-se aos novos tempos. Uma boa banca é antenada e capta as novas tendências, buscando aumentar a clientela e espantar a concorrência. O que dirá de uma banca situada no coração de São Paulo, em plena Av. Paulista?

Pois é, por aquelas bandas o que não falta são bancas de jornal. A cada 100 metros damos de cara com outra banca, de forma que tornou-se calúnia reclamar da disponibilidade de jornais e revistas na região.

Apesar da internet, do celular, do tablet, os jornaleiros não tem motivo para reclamar, pois é difícil encontrar alguma banca dessas vazia. No entanto, podemos observar uma variedade de produtos que antes não tomavam as prateleiras desses estabelecimentos.

Começou com os livros de bolso, geralmente exibidos em um display giratório que pouco atrapalhava. Com o tempo os livros ganharam um espaço maior, e até deixaram de ser pocket. Faz sentido, afinal banca é lugar de leitores, certo?

Mas numa avenida como essa, sede do MASP, era difícil eximir-se de seu papel cultural. Surgiram então os livros de arte, alguns de editoras estrangeiras, e outros de coleções antigas lançadas por jornais. Num domingo de calor é possível notar os visitantes do MASP acotovelando-se em volta de algumas publicações, ávidos por levar para casa uma réplica do Monet que acabaram de ver.

E por falar em coleções antigas, veio a febre dos livros de receita. Cozinha regional, cozinha maravilhosa da Ofélia, Dona Benta… Há um toque de sadismo em expor tantas delícias para os esfomeados que saem do trabalho e caminham até a próxima estação do metrô, mas não deixa de ser um filão a ser conquistado.

Como não poderia deixar de ser, as coleções em fascículos – “o primeiro é de graça!!” – ainda são destaque, com seus títulos variados: miniaturas de instrumentos musicais, de móveis, peças avulsas para a construção de microscópios, carros antigos e até uma casa de bonecas de inspiração vitoriana.

Por fim, uma cidade cosmopolita precisa comunicar-se em diversos idiomas. Os cursos rápidos e autodidatas, aqueles que só de ler a capa já te dá um ânimo para aprender italiano em 6 fascículos, ocupam os rodapés das bancas, tentando atrair os mais focados em sua carreira profissional.

Por mais absurdo que todos esses itens possam parecer, não deixo de enxergar um grande sentido por trás de tudo isso. A banca de jornal ainda se encontra na passagem, nas principais e mais movimentadas esquinas com o propósito de nos encontrar e nos seduzir. É claro que dá para encontrar as receitas na internet, mas veja, é um livro bonitinho por apenas R$5 no caminho do metrô! Muito difícil de resistir…

Vida longa aos jornaleiros, que eles continuem a diversificar seus estoques e que não se deixem levar pelo blábláblá daqueles que insistem em dizer que o papel vai cair em desuso. Que eles continuem a refletir as necessidades dos pedestres, e continuem a nos convidar a penetrar “surdamente no reino das palavras”.

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