Por Vanessa Henriques
Sobra de peru na geladeira, papel de presente por todos os cômodos, uma pilha de camisetas para provar e – Deus ajude! – trocar caso não sirva. O Natal acabou, mas a vida continua.
Ainda faltava o Ano Novo, para o qual todos tinham planos incríveis – menos ele. Deixou pra última hora, ficou dependendo de uma resposta do chefe e no fim se viu entre duas opções tentadoras: passar a virada ao lado de alguns milhões de pessoas na Av. Paulista ou se render ao convite de sua mãe para comer umas lentilhas.
Mas o que o incomodava já não era o Natal, que havia passado. Nem essa mania irritante que todos têm de jurar que o próximo ano será melhor, que tudo será diferente à partir da 00h01. E aí continuam a beber como no ano passado, a ter ressaca como no ano passado e a ir para o mesmo trabalho do ano passado.
O que de fato lhe tirava o sono eram todas as pendências desse ano que ainda não havia acabado. Pensava, embasbacado, como todos podiam se ocupar com as promessas (que não cumpririam) para 2014 enquanto um rol de coisas de 2013 se acumulavam num cantinho, pedindo atenção entre tantos embrulhos amassados dos presentes de Natal.
O cancelamento do cartão de crédito que o banco insistia em enviar: tinha adiado a visita ao banco para gritar com o gerente para um momento em que estivesse mais calmo. A pilha de livros que se acumulava em sua mesa, esperando empoeiradamente um dia em que ele estivesse menos cansado, menos faminto, menos sonolento. A mesa, da qual não se podia ver o tampo devido à quantidade de papéis que se acumulavam ali.
Percebeu que, ao contrário das promessas para o próximo ano (começar a frequentar a academia, retomar as aulas de inglês, consertar a pia do banheiro da empregada), gastaria o novo ano para resolver as pendências de 2013. Mas, se esse movimento já ocorre há um tempo, essas pendências poderiam ser rastreadas até o ano de 1999, quando ele chegou à conclusão de que seria uma boa idéia abrir uma conta no banco, mas nunca disse um não definitivo para o cartão de crédito!
No início dos anos 2000 veio a conclusão de que seria importante voltar ao curso de inglês, fruto de uma conversa animada com um amigo que havia decidido morar nos Estados Unidos. O amigo foi, voltou, e já viajou de novo, e o curso de inglês ainda figura na lista de promessas. Outra pendência antiga é a cidadania italiana, sempre cobrada por sua mãe, cujas anotações e até mesmo um passo-a-passo encontram-se em algum papel espalhado pela mesa…
Resolveu, então, deixar as promessas de lado e focar nas pendências mais urgentes. Mexeu em alguns papéis que repousavam pela mesa – o centro de tudo! – sem saber por onde começar. Lá fora os fogos de artifício anunciavam a passagem do ano. Ou de apenas mais uma meia-noite que chegava.
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