A casa

Por Vanessa Henriques

Aquela velha casa sempre me atraiu. Havia sido uma escola de inglês, mas já estava para alugar há um tempão. A localização era boa: em meio a uma rua de comércio movimentado, mas com muitas residências por perto, distância mediana do metrô e muitas linhas de ônibus nas proximidades. É, seria perfeita…

Nem todos entenderiam o que queríamos daquela velha casa. Iriam nos chamar de loucos, inocentes, diriam que nós só quebraríamos a cara, que o mundo não funciona assim. Talvez por isso a casa fosse perfeita: ela era a personificação de tudo que acreditávamos.

Por fora, ela não inspirava nenhuma perfeição: a construção era antiga, os muros dos prédios vizinhos haviam ultrapassado os limites do segundo andar, dando a impressão de que ela estava encaixada ali. A herança britânica estava por toda parte, com as paredes pintadas de azul, e as portas, de vermelho.

Mas a presença dela era boa, e enchia meu coração de esperança cada vez que eu passava por lá. ‘Um dia, quem sabe’, pensava eu, recheando os pensamentos de boas ideias. Pintaria de amarelo, vibrante na medida certa. Forraria a parede do fundo de cortiça. Arrancaria as janelas de alumínio. Seria real.

Passei lá na frente outro dia, dei aquela espiadela de costume, e vi uma movimentação diferente. A placa de ‘Aluga-se’, que já estava encardida no portão, não estava mais lá. Havia sinal de pedreiros e obras, e a perfeição já não morava lá.

Acompanhei a mudança, pé ante pé, toda vez que passava por lá. Pintaram tudo de branco, mas um branco tão brilhante que dava uma má impressão. Retiraram a porta de vidro, vai saber o que fizeram lá dentro. Colocaram um portão enorme, cinza chumbo, daqueles que te deprime só de ver.

O que mais me entristeceu veio depois: a cereja do bolo foi uma cerca de arame farpado, colocada para impedir entradas indesejadas. Uma cerca espiralada, grotesca, o cúmulo do mau gosto. O sonho se transformou em fortaleza.

Não é a toa que os sonhos são feitos de nuvens, e podem ir a qualquer lugar. Triste mesmo foi ver aquela casa, com tanto potencial, com tantos planos em seu futuro, ser sufocada por uma cerca farpada. Triste foi ver meus planos vagarem por aí sem um porto seguro.

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9 thoughts on “A casa

  1. Que lindo! Essa casa existe mesmo?
    Adoro contos com casas/construções…. A Mensagem, da Clarice Lispector, e A Queda da Casa de Usher, do Edgar Allan Poe, trazem histórias com construções (em que elas são quase personagens)… O conto da Clarice é um dos mais lindos que conheço, mas o meu preferido mesmo é Casa tomada, do Julio Cortázar. Ah, O Edifício, do Murilo Rubião, é ótimo também! Beijos!!

  2. Enquanto lia o seu texto fui “construindo” a casa… Eu adoro as casas antigas, feitas com cuidado e muitos detalhes. Mas, como disse o Carlos, “o sonho não acabou”!
    Adorei!

  3. Oi Vanessita! Bonito texto! Eu acho também que vc encontrará uma nova casa, não será a mesma né, mas talvez quando isso acontecer, o sonho estará mais perto de se tornar realidade, beijos!!!

  4. […] fazendo coro a algumas pessoas que comentaram – havia outra na qual você falava sobre a casa vazia (?); também gostei muito dessa mas não consegui lembrar o nome… Então, são essas duas […]

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