Por Vanessa Henriques
Quem nunca se apaixonou no ônibus ou no trem ou é ruim da vista ou não anda de transporte público. Não tem nada mais gostoso do que se apaixonar à primeira vista, nem que seja de mentirinha. E os motivos são os mais variados: pode ser um sorriso bonito, um gesto educado, um perfume inebriante e até mesmo um tropeção simpático.
O fato é que essas pequenas paixões aliviam nosso tédio, distraem nossa mente do fato de que o ônibus está muito cheio, ou muito quente, ou demorando demais. Como diria meu professor de economia, uma pessoa atraente no trem é uma externalidade positiva: ela não anda bonita por aí pra te fazer feliz — talvez faça isso por ela mesma, ou por um namorado ou namorada real —, mas acaba melhorando o seu dia.
Algumas dessas pessoas acabam virando parte do nosso cotidiano, um rosto amigo para confirmar se estamos no horário ou se vamos nos atrasar, se o motorista está correndo demais ou se o trem está muito atrasado. Nunca trocamos uma palavra, mas lançamos olhares cúmplices, tímidos, quando o outro não está olhando.
Outros são como amores de verão, daqueles que não sobem a serra. Arrebatam nosso coração com a mesma rapidez com que somem, deixando apenas o gosto divertido da imaginação. “E se falasse comigo? Se me chamasse para sair? Como será sua voz?”.
Acho que é por isso que tanta gente gostava (e ainda gosta!) de ficar por aí debruçado na janela, vendo as pessoas passarem. Como é bom ver gente, de preferência diferente, e ficar pensando como seria a vida se não fosse do jeito que é. E como é bom preservar esse sentimento mesmo morando na “melhor cidade da América do Sul”.
Como qualquer outro músculo, o coração também precisa se exercitar. Por isso é bom se apaixonar e desapaixonar assim à toa, da mesma forma que é bom se apaixonar de verdade. Já dizia aquela cantiga, tenho vários namorados mas não gosto de nenhum — a parte do tapa no bumbum já seria um pouco demais!
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