Naftalina

Por Vanessa Henriques

                Muitas vezes imagino que o cérebro humano como um grande armário, cheio de gavetinhas: uma de conversas de elevador, outra de português, uma já castigada de matemática e assim por diante. É uma maneira simplista de ver as coisas, reconheço, mas é geralmente assim que as coisas funcionam.

                Mas as gavetinhas às vezes se sobrepõem e se confundem, e de repente já não são mais suficientes para dar conta de todas as explicações. Algo muda no script, e é preciso ter mais de uma gaveta de jogo de cintura para se adaptar.

                Sempre achei engraçado, por exemplo, como temos uma dificuldade tremenda de lidar com algumas mudanças de contexto. Por exemplo juntar aquela sua amiga do colégio com uma da faculdade, ou encontrar um familiar conversando com algum colega de trabalho, e por aí vai.

                O exemplo que mais chama a minha atenção, no entanto, sempre foi o do professor fora da escola. É uma sensação muito engraçada ver aquela pessoa com a qual você convive quase diariamente andando na rua sem jaleco e, principalmente, agindo como qualquer outra:

                — Será que é ele mesmo?

                — É sim! Quase não reconheci!

               Acho que, mesmo sem querer, os professores gozam de uma espécie de fama, muito restrita mas evidente. Por isso achamos estranho encontrar com eles em qualquer lugar que não tenha giz e lousa. Bate aquela ansiedade. “Será que vai me reconhecer?” “Quem é essa pessoa ao seu lado?” “Devo cumprimentar?” são alguns pensamentos recorrentes.

                Alguns, mais desinibidos, já chegam perguntando:

                — Pô professor, é o senhor mesmo? Tá mais magro… mudou o cabelo?

                — De hoje de manhã pra agora??

                — Não sei, mas tem alguma coisa diferente no senhor…

                Mas não pense que o professor não sofre também! Ao avistar um aluno por aí, andando na rua, também bate uma tremenda ansiedade e, muitas vezes, um nó no cérebro: “Ai, qual era o nome dele mesmo?” “De qual colégio?” “Será que vai me reconhecer?” “Devo cumprimentar?”. E sai por aí revirando gavetas até encontrar o dono dela!

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