Entre caixas e beijos

Por Vanessa Henriques

Outro dia, em meio a um novo surto de arrumação, motivado pela falta de espaço crônica na metrópole, resolvi mexer em um fantasma do passado. Resolvi que iria fazer uma limpa nos meus cadernos e textos da faculdade, abrindo assim um novo nicho no meu armário abarrotado.

Comecei a tarefa — que se revelou hercúlea — pela parte agradável: fui a uma papelaria e escolhi com esmero duas pastas catálogo grossas, que tinham como missão substituir quatro caixa catálogo entupidas de papéis. O entusiasmo era tamanho que me perguntei, já a caminho de casa, se não deveria ter comprado apenas uma pasta. Adianto a resposta: não, devia inclusive ter comprado três ou quatro.

O fato é que eu sou uma acumuladora nata. E o pior, é genético: basta uma espiadela no escritório do meu pai e verás que uma filha tua não foge à bagunça. Auto lá, vamos colocar os pingos nos is: não se tratava de uma bagunça, mas sim um amontoado de papéis (e de bagagem emocional) que poderiam e ainda podem ser úteis no futuro.

O problema é que nem eu mesma estava convencida de que eles seriam úteis no futuro, afinal depois de 3 anos formada foram poucos os papéis que de fato valeram o esforço de se equilibrar numa escada e puxar na memória em qual caixa estaria aquele texto do Marx que eu li praquela matéria que eu não me lembro o nome. Era hora de desapegar.

E foi, realmente, um exercício terapêutico. Comecei pelo primeiro ano de faculdade, que foi o mais fácil de todos: lixo, lixo e lixo. Como é que eu aguentei esse ano?? Ano 2: lixo, lixo e algum apego a aquela professora sensacional — que, como não podia deixar de ser, eu não sabia quão sensacional ela era no momento que cursei a matéria.

Ano 3, só maravilha. Esse ano deu uma animada, com certeza. Já não tinha a inexperiência dos primeiros anos, consegui escolher os melhores professores, comecei a trabalhar só no meio do ano. O que, infelizmente, significou muito pouco lixo e um aumento significativo no recheio da pasta 1, que já dava sinais de estafa.

Nos últimos dois anos algumas boas matérias, outras nem tanto (a corrida pelo fechamento dos créditos faz você aceitar o inaceitável), e a pasta 2 já pedindo água. Eis que encontro, em outra parte do armário, uma série de saquinhos com o caderno e os textos que eu realmente havia consultado nos últimos tempos. Ficou pra uma próxima, qualquer dia eu compro a pasta 3.

Consegui o espaço que queria, a custa de algum desapego e muitas recordações. Construí um mosaico de aulas, professores, trabalhos e provas que, de alguma maneira, me formaram como pessoa. Dizem que os anos de faculdade são os melhores de nossas vidas. Eu discordo, respeitosamente. Os anos em si não são tão gloriosos quanto se pode pensar, mas o que realmente fica conosco é puro ouro.

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