Papo de papel

Por Vanessa Henriques

Quem trabalha em escritório sabe que um material reina absoluto: o papel. Não adianta dizer que com o computador o papel perdeu espaço. Pode ter perdido, claro, um pouco da majestade, mas continua reinando nos amontoados em cima da mesa, nas gavetas e armários.

Mas a relação que cada um mantém com o papel pode ser bem diferente. Um dia, vendo uma sobra de papel ali no canto, passei de mesa em mesa perguntando quem queria um pouco de papel pra rascunho, e as reações mais ou menos de três tipos.

Quem não gosta de acumular respondeu com um rotundo não. ‘Não tenho espaço pra isso’, ‘pra quê você vai guardar isso?’ e ‘a caixa da reciclagem fica logo ali’ foram algumas das respostas ouvidas. Tá bom, tá bom, já entendi, quem gosta de papel é traça.

Tão taxativos quanto estes foram os adoradores do papel. ‘Sim!’ ‘Claro’ ‘Tem mais?’ foram bastante frequentes. Eu estava oferecendo, mas adianto que me encaixaria nesta categoria. Os odiadores que me desculpem, mas papel é fundamental. Nada no mundo digital se compara com a liberdade (ou assombro, depende da tarefa) diante de uma folha de papel em branco.

Por fim, tivemos as reações intermediárias. Antigos adoradores em reabilitação: ‘não, já tenho bastante aqui… Ah, deixa eu dar uma olhada… Poxa, esse é dos bons. Vou pegar só um pouquinho…’. Acho que as gavetas lotadas e os olhares tortos dos vizinhos de mesa influenciaram essas respostas.

Com o advento da reciclagem, ficou mais difícil se apegar ao papel. O argumento ‘poxa, mas vai jogar fora?’ já não cola mais, e ainda pega mal pra quem quer guardar o papel e impedir seu reuso. Por outro lado,  quem pensava que o computador iria varrer o papel das mesas mais bagunçadas, se enganou. Quantas vezes você não pegou um colega no flagra junto à impressora, que logo se justificou dizendo que ‘ler na tela acaba com a vista’?

Apesar de adorar um papel, geralmente escrevo minhas crônicas no computador. Isso porque vou e volto muitas vezes, desisto do que estou escrevendo, nomeio o arquivo de nhé.doc, blé.doc ou horrível.doc. Guardo o papel para os desenhos.

E, numa conclusão triste para uma amante do papel, publico essas crônicas em formato eletrônico, afinal publicar em papel é oooutro problema. Um dia, quem sabe, essas linhas servirão de almoço para uma gorda traça?

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One thought on “Papo de papel

  1. “Poxa, esse é dos bons.” Típico comentário de um ser constrangido pelo contexto, situação comum de quando se é preciso ocupar o silêncio, mas falta à mente a sagacidade para uma frase racional. Ótimo texto!

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