Bravo!

Por Vanessa Henriques

É curioso o sentimento de se ouvir uma apresentação musical. Antes de começar, aquela ansiedade gostosa de saber que irá se divertir, ver e ouvir algo bonito, uma tradição de vai saber quantos séculos. Aplaudimos, eufóricos, a aparição dos músicos, guardando um pouquinho de mão para as palmas mais efusivas, reservadas ao maestro.

Ao primeiro levantar da batuta, me sinto em outro mundo. Como é bom viver em um mundo que há música. Acompanho de longe a entrada de cada instrumento, violinos, violoncelos, piano, ah, o piano. Aguardo ansiosamente a deixa da percussão, com seus xilofones e gongos.

No segundo levantar, volto à realidade. Passo alguns segundos aproveitando a música até que, como num arroubo, me deparo com o pensamento longe. Naquele feijão que me esqueci de descongelar. No alarme do carro (será que eu acionei?). Naquela festa do mês que vem (com que roupa eu vou?).

“Mas será o Benedito?”, penso. Será que não consigo ficar sem pensar em nada por uma horinha? Lembro-me das aulas de ioga, dos ensinamentos da instrutora, da dificuldade de me desligar. Ok, talvez esteja além de minhas capacidades.

E se não consigo me desligar, será que consigo me concentrar ao extremo, como os músicos no palco? Lembro-me das aulas de teclado nesse momento, dos ensinamentos da professora, da dificuldade em me concentrar: partitura, escolher bem os dedos, não esquecer o pedal. Para o desalento de meu pai, não segui adiante.

Mas essa não é uma apresentação qualquer. Pela primeira vez assisto a apresentação do coro, de forma que posso enxergar o rosto do maestro. Já havia testemunhado maestros em situações diferentes, mas sempre de costas. Já vi maestro tocando no fosso, no altar de uma igreja e até mesmo maestro sem paletó usando um exemplar emprestado pelo colega de profissão.

Ao olhar o rosto do maestro, a orquestra passa a fazer sentido. Ao invés da cara sisuda que se espera, ele sorria, apontando delicadamente para a deixa do próximo músico. Só de acompanhar sua expressão era possível saber qual seria o próximo movimento da música: uma melodia mais suave, quase desaparecendo, ou um arroubo com direito a gongo.

Posso não ter habilidade para música, pai, nem conseguir apreciá-la em completo estado de graça. O que me restam são essas linhas — escritas em meio a um turbilhão de pensamentos que insistem em me acompanhar — e minha vontade de estar sempre rodeada de música. E de você.

Respostas

  1. Que bonita! E que cativamente! Gosto muito quando você escreve com essa simplicidade. Ficou muito legal. Sintentiza muitas coisas, muitas situações.

  2. Que legal o texto Vanessa, me fez voltar a última apresentação de orquestra que assisti, como foi bom, mas como a cabeça realmente tem hora que tenta se desconectar rsrs bonita homenagem ao seu pai e adorei a crônica dos “Trinta” também, muita linda! Abraços

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About the author

Sophia Bennett is an art historian and freelance writer with a passion for exploring the intersections between nature, symbolism, and artistic expression. With a background in Renaissance and modern art, Sophia enjoys uncovering the hidden meanings behind iconic works and sharing her insights with art lovers of all levels. When she’s not visiting museums or researching the latest trends in contemporary art, you can find her hiking in the countryside, always chasing the next rainbow.