Jogo jogado*

Por Vanessa Henriques

            De semana passam carros, ônibus, pedestres e até bicicletas. No sábado de manhã, os feirantes chegam com suas barracas e a ocupam até o meio da tarde com o colorido de suas frutas, flores e verduras — sem contar o pastel do Seu Nelson, que inebria quem passa por ali.

            As situações são diversas, mas o palco é um só: a rua. E cada um de nós, em cada um dos vários papéis que vamos desempenhando ao longo do dia, a utilizamos sem perceber como pano de fundo. Os carros que passam durante a semana pela Rua das Laranjeiras podem não saber, mas de sábado quem domina essa porção da rua, quase ali na esquina, é o seu Nelson. E de domingo, ela vira o Maracanã.

            O Maracanã, o Morumbi, o Pacaembu, o que for do agrado da turma, que prepara o palco pra uma partida de peso. Traves de chinelo, bola meio murcha, namoradas na sarjeta: está armado o clássico. Os meninos gritam, correm, chutam e se alegram durante a tarde inteira. Carro por ali não passa, e se passa, é devagarzinho, quase que pedindo desculpa. E quem há de dizer que eles estão errados?

            A rua, que é palco de tantos espetáculos, deve estar à disposição de seus atores, e os reservas devem respeitar esse momento. Se durante a semana um balé sem fim de carros, motos e pedestres a ocupa, é porque os jogadores esperam ansiosamente pelo domingo. Quando a feira se instala no sábado, são os veículos que abrem passagem, e no domingo os feirantes já estão longe quando os meninos começam a se aglomerar.

          Assim como acontece na Rua das Laranjeiras, acontece na cidade inteira: os titulares de hoje são os reservas do dia seguinte, e sozinho ninguém joga, pois é preciso cooperação dos vizinhos de veículo, de calçada e de casa. E se a rua é de todos, então todos estão convidados a entrar em cena.

*Esta crônica foi escrita para o 6º Prêmio CET de Educação de Trânsito. Maiores informações aqui.

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About the author

Sophia Bennett is an art historian and freelance writer with a passion for exploring the intersections between nature, symbolism, and artistic expression. With a background in Renaissance and modern art, Sophia enjoys uncovering the hidden meanings behind iconic works and sharing her insights with art lovers of all levels. When she’s not visiting museums or researching the latest trends in contemporary art, you can find her hiking in the countryside, always chasing the next rainbow.