Amigo do rei

Por Vanessa Henriques

Nem sempre conseguimos fazer tudo na ordem que desejamos. Aliás, acho que esses são, na verdade, os momentos mais raros, pois em geral nos atropelamos ou nos atrasamos ao sabor das circunstâncias. Talvez essa seja a graça toda do imprevisto.

Essa reflexão não me veio à toa. Foi fruto de um atropelo literário que me ocorreu nos últimos tempos. Havia lido, já faz um tempo, um livro de crônicas escolhidas do Fernando Sabino, do qual gostei muito.

Um dos aspectos que mais me chamou a atenção no livro foi a quantidade de encontros casuais com grandes nomes da literatura. Acho que por isso que gosto de ler biografias, pois nem sempre conseguimos localizar no tempo o contexto em que determinados autores viveram e, principalmente, com quem eles conviveram.

Daí que outro livro que me chamou atenção pelo mesmo aspecto foi Itinerário de Pasárgada, autobiografia escrita pelo próprio Manuel Bandeira por insistência de ninguém menos que Fernando Sabino. Outro livro muito bom, para o qual recomendo imensamente a leitura, que li alguns meses (anos?) depois do título de  Sabino.

Eis que outro dia me deparei novamente com o mesmo livro do Sabino e, para minha surpresa, ao abrir em uma página aleatória, dei de cara com a crônica ‘Evocação no aniversário do poeta’, na qual o cronista conta, com uma delicadeza que lhe é peculiar, um episódio em que encontra Manuel Bandeira em um ônibus, assim como quem não quer nada. Sabino discorre sobre a admiração pelo poeta que, até então, não conhecia, pra depois contar como criou uma amizade com ele. Um dado momento ele diz:

“Um dia subo a Petrópolis para arrancar dele suas confissões literárias: pièce de resistence de uma revista que Paulo e eu queríamos fundar. A revista não saiu, mas a ela a literatura a literatura brasileira ficou devendo o Itinerário de Pasárgada, mais tarde editado por João Condé.”

Estava feita a ponte, ainda que às avessas. Corro para o Itinerário, no qual a dedicatória, que havia chamado minha atenção pela rabugisse, confirmou: “A Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos & João Condé, que me fizeram escrever este livro, dedico-o. M.B.”

Juntei as pontas da história, e me deliciei por alguns minutos com os dois livros, com vontade de recomeçar a lê-los naquele instante. Afinal, tudo havia mudado, assim como a relação de Sabino e Bandeira. Ou nem tanto: “Acabei mesmo realizando meu sonho de juventude: o de ser seu amigo. Embora ele continuasse sendo sempre aquela figura cuja grandeza deslumbrava o jovem a seu lado num ônibus”.

Deixei o Itinerário na cabeceira, aguardando uma folga nas leituras. E ando atenta pelos ônibus, tenho um palpite forte de que os poetas ainda andam neles.

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