Além

Por Vanessa Henriques

                Passei a semana buscando algo sobre o que escrever. Já faz tempo que algo não me inspira e, como num arrebatamento sem volta exclamo ‘isso rende uma crônica’ — arrebatamento, aliás, que rende os melhores textos. Passei a semana buscando epifanias mas, para meu azar, foi uma semana como outra qualquer.

                A verdade é que procurei errado. O mote da semana estava aí, o tempo todo, eu que não queria ver. É que andei procurando por ele em meio à vida, mas essa não era esse tipo de semana. Quem me rondou foi aquela que ronda a todos, a inevitável, aquela que vem mesmo sem convite.

                Começou no domingo: a frase, martelada em meio a uma apresentação de teatro, ecoou nos dias subsequentes em minha cabeça:

Existir é morrer

Não existir é desaparecer

                Não entrarei na seara filosófica: muitos o fizeram muito antes e melhor do que eu. Resgato, apenas, um dito muito repetido por minha avó: para morrer, basta estar vivo. Existir seria, portanto, andar sempre à beira do abismo, na corda bamba entre vida e morte — e talvez por isso, uma evidência que podemos ocupar os dois terrenos ao mesmo tempo.

                Enquanto me perdia em (quase) filosofias, tinha uma morte no meio do caminho.  Veio por meio de um telefonema, e ecoou na mesa do restaurante. ‘O que aconteceu?’ ‘Ele morreu’. Era um tio nem muito próximo, nem muito distante. Viveu bem seus 87 anos, abraçou sua neta muito forte antes de partir. Deixou saudades.

                Naquela mesma noite, durante uma palestra, a morte e todas as suas possibilidades posteriores reinavam no auditório. ‘Há um impulso muito forte do homem em entender a morte, e em alguma medida se comunicar com os mortos’, dizia a convidada. É verdade. Queria conversar, naquele instante, com o tio que acabara de partir. Teria visto uma luz? Estaria no paraíso? No inferno? Ou não estaria, simplesmente?

Existir é morrer

Não existir é desaparecer

                No final da semana, outra morte relatada. Uma avó de 99 anos bem vividos, prestes a completar seu centenário. Viveu bem, deixou filha, filho, netos e netas. Deixou saudades e, portanto, não desapareceria. Pensei, no alto do meu egoísmo: ‘que semana foi essa…’.

                Uma semana como outra qualquer. Porque não há nada de extraordinário na morte — que é, aliás, a coisa mais certa no destino de todos nós. Ela cruza e descruza nossos caminhos, como que para nos lembrar de sua inevitabilidade. Procurei assuntos na vida, e me veio esse: um assunto inesgotável e talvez um dos assuntos mais relacionados à vida e aos homens. Não há crônica melhor do que essa.

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2 thoughts on “Além

  1. A crônica – excepcional, vale dizer – da sua semana, crônica de muitas vidas, falou sobre a morte. Essa semana para mim não foi trágica, ninguém morreu, mas eu quasimorri tentando não desaparecer. Puta semana chata… jamais renderia uma crônica, uma vida, ou qualquer coisa que o valha. Só descobri um novo verbo: quasimorrer. Mas não vale o verbete.

  2. Que crônica forte, me fez pensar em tantas coisas…é triste a morte, mas é quando ela vem assim de repente que vemos que não tem jeito, ela fará sempre parte das nossas vidas e chega no momento que ela bem entender. Lindo texto Vanessa! Abraços.

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