Por Vanessa Henriques
Encontrei, outro dia, uma amiga querida que vai se mudar do país. Conversa vai, conversa vem, e ela foi me contar a dificuldade de resolver tanta coisa em tão pouco tempo. Sua lista de coisas a fazer inclui desde vacinar o cachorro até pintar os rodapés do apartamento, sem contar o certificado da faculdade que ela jamais buscou e aquela torneira do tanque que nunca ninguém se animou a consertar.
Enquanto ela contava essa história, não conseguia parar de pensar na quantidade de coisas que teria que resolver se fosse comigo. Eu, que já sou uma aficionada por listas de coisas a fazer — chego a fazer mais de uma por semana e, curiosamente, a segunda lista sempre inclui itens não resolvidos da primeira —, comecei a pensar no tamanho da lista. Seria algo próximo daquelas cartas quilométricas cheias de beijos que mandavam para a Xuxa.
Minha amiga, no entanto, estava bem serena. Graças à ajuda de um site, o qual ela prontamente me indicou, não estava totalmente desesperada: nele é possível fazer um ‘mural’ de pendências, categorizado de acordo com a urgência e todos os setores que conseguir enumerar: trabalho, casa, documentos, inutilidades, etc.
Empolgada com a possibilidade de unificar todas as listas da minha vida, resolvi experimentar o site. Vasculhei por todos os cômodos e cantos da memória tarefas esquecidas mas fundamentais (escrever mais crônicas; arrumar a prateleira dos livros que está quase caindo; recuperar aquele livro emprestado; tirar o passaporte português; e por aí vai…). Ao final de algumas horas, o circo estava montado.
Ao olhar para o meu mural, no entanto, o sentimento não foi o mesmo que sinto ao final das minhas listas cotidianas (que agora não vou esquecer o que tenho para fazer; que tudo poderá ser resolvido com algum determinação; o quanto ficarei feliz ao riscar a última tarefa). O sabor era mais amargo, e o motivo estava claro: calculei que levaria, no mínimo, alguns anos para riscar todos aqueles compromissos — isso, claro, se largasse meu emprego e me dedicasse exclusivamente à função.
O problema não era o mural em si, mas o fato de que — os fazedores de lista em série poderão me ajudar nessa — a satisfação toda está em riscar o item atendido. E quanto mais difícil de atingir esse objetivo, mais o papel vai se amassando, mais você vê o seu objetivo lá na frente, gritando ‘não me peeeega!’. Acaba a graça do negócio.
Apaguei as listas, e tratei de esquecer tudo aquilo que havia me esforçado para lembrar. Com o tempo, as coisas se ajeitam, disse a mim mesma, buscando consolo. Pode ser uma mudança de casa, de país ou simplesmente uma semana de tédio. Tudo a seu tempo. Item para a próxima lista: fazer menos listas. E comprar ginseng.
Disponível em: http://www.savagechickens.com/2014/10/the-list.html?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+SavageChickens+%28Savage+Chickens%29

Deixe uma resposta para Carlos Cancelar resposta