Dia noite dia

Por Vanessa Henriques

                Muita gente se gaba por aí de ser uma pessoa de hábitos noturnos — ou notívaga, para os íntimos —, de conseguir passar uma madrugada toda dançando ou estudando, dependendo da época do ano. Como a noite sempre foi considerada misteriosa, anônima e cheia de possibilidades, essas pessoas acabam se passando sempre por “descoladas”.

                Eu, que nunca fui descolada, nem mesmo passei perto disso, penso de outra forma. Gosto mesmo é do dia, da manhã principalmente. Não consigo estudar depois das 23 horas, e dá pra contar nos dedos de uma mão (e não gastar todos!) quantas vezes passei uma noite inteira acordada. E talvez por isso não veja muito o porquê de sair falando por aí que sou uma pessoa de hábitos diurnos, pois acho que não seria muito bem compreendida.

                Mas no fundo, lá no fundo, eu sei quem eu sou. Acordaria cedo todos os dias se conseguisse ir dormir cedo o suficiente para não andar por aí às cabeçadas. Por mais que eu não seja exatamente uma notívaga, me pego muitas vezes acordada bem mais tarde do que gostaria!

                Os noturnos devem estar pensando: mas o que diabos tem de bom em acordar cedo? Vai da pessoa, mas eu tenho alguns argumentos que talvez possa convencer um ou dois. O primeiro deles é o silêncio. Pode parecer estranho, mas uma cidade desse tamanho demora, mas uma hora vai dormir. E justamente por causa dessa demora, ela também gosta de acordar mais tarde.

                Pode reparar: se um dia você acordar por acaso antes do horário de costume, vai se deparar com um silêncio profundo na rua e na sua casa, daqueles de dar para ouvir os pensamentos. Alguns passarinhos podem estar nos galhos ou nos fios anunciando o novo dia, mas pouca gente irá escutá-los.

                O segundo argumento tem a ver com o clima. Uma brisa agradável, que existe até mesmo nos verões mais implacáveis, sopra toda manhã, confundindo-se com os raios de sol mais teimosos que insistem em invadir portas e janelas, misturando-se à poeira invisível.

                Nas ruas há uma pessoa aqui, outra ali, mas o código do silêncio impera. Uns ainda estão dormindo, outros estão emburrados por ter que acordar tão cedo, mas a maioria está pensando em outra coisa. Das janelas, em sua maioria fechadas, alguns sonhos tentam escapar pelas venezianas, afinal daqui a pouco já é hora de acordar.

                Talvez você não achei graça em nada disso, ou talvez concorde plenamente. O que importa é que noite e dia convivem pacificamente, um após o outro, agradando a gregos e troianos.

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