Romã

Por Vanessa Henriques

                 Mais por tradição do que por necessidade, comprei minha agenda para 2015. Afinal, eu me conheço: devo usar agenda nos primeiros meses, dar uma pausa de quatro meses de post its grudados no celular e avisos enviados por e-mail para mim mesma, reencontrar a agenda no meio do ano e me apaixonar novamente, usar lá pra dezembro, quando o bicho pega e não há post it que dê conta e só reencontrá-la no novo ano, para passar os aniversários para a nova companheira.

                Já caí na armadilha de comprar agendas bonitas, agendas fofinhas, mas com o tempo fui ficando mais profissional: compro a mais barata, que pese menos na bolsa, e de preferência neutra (esse quesito é especialmente difícil de equacionar, afinal contrasta com o quesito preço, e já passei um ano todo com uma agenda da moranguinho que foi uma pechicha). Isso garante algumas semanas de sobrevida.

                Não que eu não adore uma organização: adoro fazer arrumações, sou movida a listinhas de afazeres que, quando completas, amasso sem dó e jogo no lixo. Missão cumprida! Vai ver é esse meu problema com agendas: nela fica registrado o que geralmente vai embora no papelzinho: fazer a unha do pé, comprar banana na feira e outros compromissos inadiáveis vão embora, sem deixar registro de nosso cotidiano muitas vezes patético.

                Mas uma função ela cumpre com excelência, que é a de lembrar os aniversários. Quem não usa redes sociais e tem alguns poucos e bons amigos reconhece a importância de anotá-los no dia correspondente. E, quando compramos uma nova agenda, repassamos as datas — adicionando algumas, cortando aquelas que já não fazem sentido — à mão, coisa que deixaria qualquer aficionado por tecnologia de cabelo em pé.

                É nesse momento, também, que nos lembramos um pouquinho do ano que passou. As viagens feitas, as idas sucessivas à manicure, os trabalhos da faculdade que entregues, as festas que fui e os aniversários que possivelmente esqueci (estavam anotados nos quatro meses negros, fazer o que?), ou seja, detalhes cotidianos sem muita importância dos quais ninguém se dá conta quando pula as sete ondas, mas que fazem o ano de verdade. Sem utopias, sem promessas.

                O que espero do ano novo é o que espero da minha nova agenda: que não pese na bolsa, que me lembre dos aniversários importantes, que não me deixe esquecer das festas e viagens, que me livre da tentação dos post its. Amém.

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