(re)flexões

Por Vanessa Henriques

                No começo eu tinha gostado dessa história de academia no prédio: não tinha que ficar o dia todo carregando uma mochila pesada, não gastava tempo até chegar lá, dava para ir com roupa de ginástica velha e, o melhor, era vazia. Tão vazia que eu nunca encontrava ninguém — e olha que eu variava bastante de horário.

                Passaram-se meses, anos assim, na tranquilidade. Até reformaram o lugar, que ficou mais amplo com a retirada da sauna (pasmem, tinha sauna! E acho que ela nunca foi usada) e do banheiro. Ainda assim, poucas vezes encontrava alguém, e quando via já era de saída.

                Eis que o projeto verão bombou. Não sei bem como, nem quando, mas de repente aquilo tava mais cheio que academia badalada na segunda-feira. Tive que desistir da esteira e encarar a renegada bicicleta — não sei porque, mas ninguém gosta de fazer bicicleta — devido ao fluxo intenso.

                E não só os outros moradores apareceram, como uma multidão de personal trainers, cada um com seu estilo e todos invariavelmente com seu capacete (ter moto faz parte do estilo saudável?). Já chegou ao absurdo de ter três personais diferentes num espaço de 5m², se acotovelando na duas esteiras e pouquíssimo espaço disponível.

                Se tem uma coisa que não entendo é quem contrata personal trainer. É bacana, treino privativo, o cara vai até a sua casa, te estimula a não desistir, afinal tem alguém lá embaixo te esperando. Mas ao mesmo tempo… tem coisa pior do que malhar com alguém te olhando? Você lá morrendo de suar, esbaforido, e o cara lá te olhando e te mandando fazer mais dez flexões? Sem contar a necessidade de manter um papo de elevador rolando por todo o tempo do treino (só essa tensão já me faria distender dois músculos).

                Daí que eu mudei meu horário. Mudei de emprego, e chegava muito tarde em casa, comecei a frequentar a academia logo cedinho, lá pelas 6h da manhã. Um dia dei de cara com o aviso: Horários para utilização: das 7h às 21h. O síndico comentou que andaram fazendo barulho logo cedo e o morador do primeiro andar reclamou.

                Fiquei na dúvida do que fazer, mas resolvi arriscar. Continuei frequentando a academia às 6h, a portas fechadas e com a televisão no mudo. E morrendo de medo de ser pega no flagra, o que fez meu treino dobrar em termos de adrenalina.

                Já fui flagrada por alguns moradores passando, e o porteiro é meu cúmplice confesso, pois me vê pelas câmeras passando pra lá e voltando pra cá suando depois de 1 hora. O flagra mexicano que imaginei, com direito a indiretas ou denúncias ao síndico não aconteceu ainda, o que me fez relaxar um pouco. Quem sabe não contrato um personal só pra levar a bronca por mim?

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3 thoughts on “(re)flexões

  1. Hahahahahaha!!! Que demais! E não comentou do pessoal que reclama e mesmo se nega a fazer os exercícios que o personal paga (mesmo que estejam pagando pelo personal!), rs.
    E realmente, que pique de acordar cedo pra malhar, mas pelo que eu me lembro o Henrique pulava corda e fazia flexão de madrugada!!! (denúncia!)

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