Por Vanessa Henriques
Li outro dia um artigo muito bom sobre o que autor chamava de ‘empregos insignificantes’. Era toda uma análise de fundo econômico sobre como a profecia de que a tecnologia nos libertaria das longas jornadas de trabalho nunca se materializou, contribuindo na verdade para a existência de empregos inúteis, sem os quais o mundo sobreviveria sem grandes incômodos.
Como representante desta categoria inútil, é óbvio que o assunto me marcou. Mas não só a mim: comecei a pensar nos colegas de faculdade, nos amigos de escola, nos familiares, quantos deles de fato exercem uma profissão essencial para a sociedade? A resposta não é muito animadora.
O mais curioso é que ninguém pensa que vai ser assim (óbvio, ninguém é tão pessimista). Quando somos crianças pensamos que vamos ser bombeiros, astronautas, maquinistas, e até moças do tempo. Misturamos as brincadeiras que conhecemos com o mundo que pouco conhecemos, e daí saem os primeiros desejos, que podem fazer sentido ou ser totalmente esquecidos com o tempo.
Com o passar do tempo os desejos são outros. Pode ser dinheiro (quem não quer?), mais tempo livre ou apenas um chefe que não pegue tanto no pé. Mas lá no fundo, resta aquela vontade de não só ter um emprego que pague as contas, mas também que faça alguma diferença, que pode vir na forma de reconhecimento da chefia ou da área em que atua.
Ninguém quer pensar é que apenas uma pecinha — talvez inútil — numa engrenagem maior, enferrujada, e que ninguém vê em sua totalidade. É muito difícil ser tão prático. Eu, por exemplo, sempre me imaginei fazendo algo relacionado às artes (o que pra algumas pessoas pode ser até mais inútil que passar 8 horas num cubículo cinza, mas isso é outra discussão).
Pensava que poderia fazer algo com música. Ou artesanato. Ou até mesmo poesia. Nada disso aconteceu — e se eu tivesse prestado atenção ao meu desempenho na aula de artes do colégio já podia ter percebido o inevitável. E, apesar disso, esse sonho (se é que se pode chamar de sonho) continua vivo, a me atordoar.
Talvez ele sirva de consolo, de que algo maior me espera. Mas ao mesmo tempo algo me diz que ele nunca vai se realizar. Tudo bem. Ele é só uma pecinha insignificante dentro deste labirinto que é a minha mente.
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