Linha cruzada

Por Vanessa Henriques

 

Trem lotado de manhã. Todo mundo se acotovelando na plataforma pra garantir um espacinho próximo da faixa amarela. Trem chega, maioria entra. Fecham as portas. Entre fones de ouvido e o barulho da rua abafado pelo ar condicionado, ouço uma voz lá do outro lado do vagão:

— Oi, que bom que vocês me ligaram, porque eu tô a semana toda tentando resolver isso e não consigo.

— …

— Então, o que acontece é o seguinte, vocês ficam me ligando para dizer que eu tenho uma fatura pendente, mas eu não tenho. Eu já fiz o pagamento, me mandaram duas faturas em fevereiro e eu paguei a de maior valor, conforme orientação da atendente.

Há quem disfarce, mas não tem como resistir a ouvir a conversa. Nenhuma conversa supera em volume a da moça e, agora, todos querem saber o desfecho. Aliás, quem nunca passou por isso? Ontem mesmo saiu a notícia: teles lideram reclamações no Procon. Vamos ver no que dá.

— …

— Mas moça, eu não tenho nada pendente, já falei até com outra atendente, eu tenho o protocolo, dizendo que eu não tinha nenhuma pendência com vocês!

— …

— Olha, eu não tenho culpa se o sistema de vocês não funciona e as coisas não se conversam.

O vagão grita em uníssono silêncio: ié!

Moça, resolve isso logo que minha estação é a próxima. Será que ela vai pedir pra falar na ouvidoria? Eu pediria! Palhaçada o que eles fazem com a gente.

Silêncio. Estaria ela na espera, ouvindo músicas dos anos 90 em alto e bom som? Ou teria terminado, sem sucesso, essa ligação, e receberia mais tarde uma correspondência em casa, ou mesmo multa na próxima conta?

O barulho dos carros abafa todo o som, e já sigo resignada, sem saber o que aconteceu. Teria ela ao menos anotado o número do protocolo..?

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2 thoughts on “Linha cruzada

  1. É uma pena que eu não tenha como postar uma foto aqui. Mas tenho uma foto da tela do meu celular que registra o dia em que a GVT tentou me ligar 79 (setenta e nove) vezes me cobrando por um serviço que nunca contratei, detalhe, meses depois de eu ter cancelado um outro serviço que nunca solicitei. Meu advogado disse que isso é a prova de assédio moral. Após 30 meses, mais de 60 números de protocolo registrados (alguém anota número de protocolo? Eu anotei…), muito palavrão que eu nem sabia que sabia falar, ofensas em manhãs ensolaradas de domingo e, claro, meu nome lançado no SPC, o dia da audiência se aproxima. Alê e tele cara a cara. É tipo o Dia do Juízo Final. Rebelião de John Connor contra as máquinas.
    O que mudará? Nada. Após 30 meses estou mais amargo e com o coração mais frágil. Trem segue e GVT wins.

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