Batendo panelas

Por Vanessa Henriques

                 Eu gosto de cozinhar. Gosto mesmo. Não gosto de lavar louça, de descascar legumes, do cheiro de alho que insiste em se enfiar debaixo das minhas unhas, da sujeira que fica grudada no fogão, da dificuldade de acertar o sal/açúcar/pimenta. Mas a cozinha me atrai, não tenho medo dela.

                Acontece que o meu nicho era muito claro até bem pouco tempo. Eu fazia bolos, doces e sobremesas. Nos salgados, arriscava um kibe de forno, e nada mais. Minha especialidade era tudo que ia bem com café, ou seja, tudo que veio depois da refeição principal ou uma besteirinha para enganar a fome de fim de tarde. Nada do que dependesse o sustento de ninguém.

                Só que, ao sair da casa da minha mãe, as coisas mudaram. Não só tinha que fazer a sobremesa como também o arroz, o feijão, a salada e a temida “mistura” (suas mães falam isso também?). De repente me vi presa num labirinto em que minha pouca habilidade em nada me ajudava. “Tem frango congelado e alguns tomates na gaveta. O que fazemos?” “Kibe…?”.

                O que eu descobri nessa caminhada é que a habilidade vem com o tempo, e não é ingrediente primordial. O que a cozinha quer é coragem. E dá-lhe buscas em sites de receitas, livros empoeirados e na minha salvação de todas as horas: o livro de receitas da Dona Benta.

                Esse livro não é só maravilhoso porque tem 1005 páginas (eu chequei) e todas as receitas que a parca imaginação de uma não-cozinheira possa chegar. Ele é bom porque ele não julga as suas habilidades. Não sabe fazer arroz? Tem lá. Não consegue vencer a barreira do “sal a gosto”? Ela te diz em colheres de chá, café, sobremesa e até de sopa o quanto você precisa. Não tem ideia o quanto dá em colheres 100 gramas de margarina? A Dona Benta sabe. Não é a toa que esse livro tem duas páginas de avaliações só no site das Americanas e “100% dos clientes recomendam este produto”.

                Aí a receita fica boa, e a vontade de contar pra todo mundo é maior do que a fome. Não sou adepta da foto no Instagram, mas não resisto a me gabar para os familiares e amigos. Nem que seja para dizer “lembra aquela carne que eu tô falando faz duas semanas que vou fazer? Finalmente eu fiz, e ficou ótima”. Posso sentir o alívio do destinatário à distância por saber que não vai mais ouvir sobre a carne. Mas o que a próxima semana reserva? Peixe? Frango?

                Só que uma receita boa não garante o sustento da família — e eu descobri que tenho sérios problemas para calcular porções e refeições. E lá vamos nós planejar o que fazer durante a próxima semana. Já chego à feira com ares de matrona. “Quero dois maços, e não três”. “Isso dura se for congelado?”. Claro que no meio do caminho sempre rola uma pizza, um convite para jantar e, claro, o inevitável miojo. Ninguém é de ferro — nem minhas panelas são!

                Percebi que preparar uma refeição não difere muito de preparar um texto. Envolve história, contratempos, ritmo, cadência e, até mesmo, leitores, que saboreiam o processo e o resultado final. Algumas rendem comentários, outras só saciam a fome. Mas o cheiro do alho, esse sim, persiste.

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