Viveiro

Por Vanessa Henriques

Quando nos mudamos, éramos dois. Dois perdidos em alguns metros quadrados pouco ocupados, com alguns móveis e eletrodomésticos considerados essenciais. A casa foi ganhando corpo, cores, móveis, poeira. Caixas, muitas caixas (algumas ainda por aqui). Comida. Flores e plantas. E até frescuras.

Estávamos, enfim, sós, como havíamos planejado por tanto tempo. Ao menos era o que acreditávamos. Mas os primeiros sinais de que não ficaríamos só nós não tardou muito a aparecer. Um pozinho suspeito se acumulava debaixo de uma das cadeiras escolhidas com muito esmero. Só podia ser cupim.

Era cupim. A cadeira foi isolada no canto da sala, por mal comportamento. Medíamos a cada dia os novos grãos de pó que se acumulavam no papel sulfite que colocamos embaixo dela. A angústia aumentava à medida que o dono da loja nos enrolava para trocar a cadeira. Se seguiram algumas noites mal dormidas, pesadelos de cupins gigantes atacando nossos bens mais preciosos: os livros, que dormiam no cômodo ao lado sem saber do perigo que os esperava.

Não foram tantas noites mal dormidas assim, afinal depois de sermos enrolados por três semanas, acabamos torcendo para o melhor. Havia madeira de sobra na cadeira pra entreter os nossos inquilinos, tudo ia ficar bem. Com muito esforço, a cadeira foi trocada. A paz retornou ao lar.

Aí foi a vez dos mosquitos. Era verão ainda, e o calor castigava as pernas dos incautos que esqueciam o repelente. Inseticidas comuns? Isso é para os fracos (e endinheirados, diga-se de passagem). Lançamos mão da famosa “minhoquinha”, uma tira de sabe-lá-Deus-o-quê que, quando queimada, espantaria os insetos. Só faltou dizer que espantaria os humanos também, afinal o cheiro da minhoca queimada era insuportável.

O verão passou, os mosquitos sumiram. Aí chegaram as formigas. Elas ainda não chegaram com tudo, é bem verdade, mas estão chegando aos poucos. Parece que a cada dia conhecem um novo armário, uma nova fresta, chamam algumas amigas para explorar com elas. Vamos nos entrincheirando: colocamos coisas em cima da geladeira, dentro da geladeira, no forno ou em sacos plásticos. Por ora, estamos ganhando a batalha, que claramente está em curso.

Até aí, tudo bem, casa sem formiga, Bochecha sem Claudinho. Eis que tivemos um retorno inesperado: a suspeita de uma nova cadeira contaminada. Não queríamos acreditar. Não era pó de cupim, como da outra vez: eram algumas farpas, soltas pelo assento. Já não estavam ali desde o começo?

Não estavam, e numa fatídica manhã de um sábado, coloquei meus óculos para ver melhor o que estava acontecendo. Vi bem demais: uma larva, nojenta, saía por um buraquinho e comia tudo que via pela frente. Não era cupim, era broca, mas a dor de cabeça seria semelhante, eu já sabia. Eis que fiz o que qualquer pessoa sensata faria nessa situação: chorei, como fazia tempo que não chorava, ao olhar o pequeno bichinho devorando a cadeira.

Lá se foram mais três semanas de ligações diárias para a loja, em busca da troca de mais uma cadeira. Sabiamente embalamos a cadeira em dois sacos pretos. Arruinou o feng shui da sala, mas tivemos certeza de que foi a melhor decisão que tomamos quando finalmente trocaram a cadeira e abriram o saco: a larvinha já tinha aberto três novos buracos e roído muitas farpas.

Pois é, não estamos sós. Acho que nunca estivemos. A casa tem, afinal, vida. Mas não a vida que esperávamos: desde que nos mudamos estamos cortejando os passarinhos que rodeiam a vizinhança. Tentamos bebedouro, pães e frutas cortadas. Eles ainda nos esnobam, e no máximo nos sobrou a cortina com pássaros estampados. Enquanto isso colecionamos duas cadeiras arruinadas, formigas em ascensão, pernilongos e mosquitos que se acumulam na cúpula dos lustres. E todas as cadeiras passam por um escrutínio diário. Temos bastante companhia.

 

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2 thoughts on “Viveiro

  1. Nunca estamos sós. Estes cupins de madeira seca (sou especialista nisso) são até bacanas. Devoram devagarinho. Se pegam livros, não comem tudo de uma vez. As brocas já controlam vastas áreas do meu quarto: tem sido assim há uns 15 anos. Segundo o parça que me ensinou tudo o que sei, uma larva de broca pode ficar até 7 anos adormecida, pra acordar, furar mais um tanto, botar ovos e morrer. Assim que vocês só saberão se se livraram mesmo das brocas daqui a 7 anos. E quando virem uma broca viva, relaxem, ela vai morrer sozinha.
    E ó, vou te falar, você nunca veio aqui em casa. O Seu Feng tentou entrar aqui em casa uma vez, mas seu amigo Shui começou a chorar, segundo ele, minha casa era caso perdido. A ruína de uma filosofia. Fiação exposta, a mesma pintura há 35 anos, a devastação do cupim de terra (esse sim, meu… eles são pior que o George Bush), rachaduras, tacos soltos, sacos e caixas velhas por todos os lados, sem falar que as cadeiras a gente pegou de uma casa que estava sendo demolida. Que a bandidagem não me escute, mas as portas nunca fecharam, é só decoração mesmo. Mas mesmo assim somos uma família feliz e “zen”: o que importa não são os bens que pomos dentro de casa, mas o amor e a cumplicidade que regem as pessoas que dividem espaço com os demais pequeninos e insaciáveis inquilinos.

  2. É Vanessa, como o Alê disse nunca estamos sozinhos. Mas enquanto o Alê é adepto de uma abordagem zen, eu e a Ligia somos mais radicais com nossos inquilinos. Logo que mudamos usamos essa paradinha aqui: http://www.bayercropscience.com.br/site/nossosprodutos/saudeambiental/DetalheDoProduto.fss?Produto=39

    Funciona de verdade, ficamos um ano sem ver uma formiga por ali (muito menos cupins, baratas e afins). Mas agora que temos o Sr. Watson, não nos atrevemos a usar esse veneninho maroto novamente.

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