Alexandria

Por Vanessa Henriques

 Quando decidimos nos mudar, fomos categóricos. Já que geralmente somos meio, digamos, apegados ao dinheiro, iríamos esbanjar nos itens que julgávamos mais importantes: uma cama confortável, um bom chuveiro e uma boa estante. Os dois primeiros se resolveram fácil, mas o último deu trabalho.

Imaginávamos uma estante bonita, espaçosa e resistente. Grande o suficiente para guardar livros, viagens, sonhos. Na casa em que me criei tinha uma dessas, na do meu avô também, seria natural ter uma dessas. Não só natural, mas necessário: ainda que não sejamos do tempo da Barsa, nossa coleção de livros não é exatamente pequena. E pesa, como pesa.

Andamos por lojas e lojas namorando modelos, anotando preços e analisando a resistência. Quando estávamos perto de nos decidir, vieram os sucessivos banhos de água fria. “Moça, você acha que aguenta muitos livros?” “Ih, moça, livro não tenho como garantir”. Mas gente, o que eu faria com uma estante tão grande se não fosse para colocar livros? Não há bibelôs no mundo suficientes para preencher tanta prateleira.

Veio a desconfiança: será que as pessoas ainda têm tantos livros impressos assim em casa? Temos computadores, e-readers, tablets, celulares e tantas parafernálias capazes de armazenar coleções inteiras ocupando pouquíssimo espaço. Por certo não tem a mesma graça do que folhear uma página bonita, sentir o cheiro das folhas ou ver, pela lateral, o quanto ainda resta por ler, mas com certeza ajuda na hora de tirar o pó!

Enquanto não encontrávamos a estante ideal, partimos pro improviso. Compramos duas estantes de metal, meio vagabundas, na promoção. Montamos uma: ficou bamba, só podia puxar o livro se empurrasse a estante para trás. Montamos a outra: estranhamente ficou mais firme que a primeira, e o peso dos livros e das duas estantes juntas ajudou a formar um poderoso megazord que por ora está funcionando bem. Um móvel doado (que aguenta livros, veja só) ajudou bastante na tarefa, e ficamos assim.

Fizemos uma promessa de dar um tempo nos livros mas, depois de uma última volta pelo shopping voltamos com dois novos. Um é de bolso, mas se os bolsos não são mais feitos para guardar livros, voltamos ao problema das estantes. O jeito é dar uma chance para a leitura virtual — que, por sinal, é o que sustenta este blog. Imagina se esses três anos de crônicas estivessem em papel?

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