Tudo o que eu queria era uma estante

Por Carlos Augusto de Oliveira

Há muito tempo eu queria uma estante. Uma não. Na verdade eu queria várias estantes. Prateleiras e mais prateleiras que dessem conta dos livros que acumulei ao longo dos anos, os quais se encontravam empilhados ou acondicionados em caixas em um canto do meu quarto, além de diversos exemplares espalhados pelos mais diversos cômodos da casa.

Durante anos tive que conviver com a pressão familiar para eu me desfazer de meus livros, quando tudo que eu queria, na verdade, era um lugar para guardá-los com o devido carinho e respeito.

Acusavam-me de juntar muito papel, de que eu não lia aquilo tudo e de que o que eu já li não me seria mais útil. Muitos dizem que a maior parte dos livros que colecionamos com o passar dos anos vão passar incólumes por nossas vidas sem se quer terem sido folheados. É verdade que tenho bons candidatos a participarem desse processo, mas com certeza são uns poucos. A maior parte dos livros que tenho já li ou pretendo ler em breve, sendo difícil que eu não faça isso devido a uma necessidade dessas leituras para o exercício profissional, acadêmico ou mesmo a um grande interesse por seu teor.

Alguns desses livros já li mais de uma vez, e não foram poucos, embora poucos sejam os que reli mais de uma vez – ainda que os haja.

Assim sendo, não justifica que eu os atire no lixo ou numa pilha de fogo como se juntos não levassem uma parte de mim. Não, o que eu precisava não era me desfazer deles, mas ter um lugar para eles, inclusive para que ficassem à disposição e com fácil acesso para quem mais precisasse deles além de mim!

Diziam que ao me casar eu seria obrigado a me desfazer deles, mas não foi o que aconteceu. Minha noiva também tinha uma paixão pelas páginas e páginas encadernadas. Outros títulos, outros gêneros, mas a mesma necessidade que eu: estantes!

Foi assim que ao nos mudarmos para nossa nova casa elencamos as prioridades de nossos investimentos. Não somos pessoas com gostos muito complicados ou exigentes, de forma que poucas foram as coisas que fizemos questão na hora da compra. Na cama gastamos um pouco mais, pois uma coisa é dormirmos sozinhos, nos adaptando em cada vão do colchão por onde o estrado escapa, ou nos buracos que já tem o formato de nosso corpo; outra bem diferente é fazer o mesmo com alguém ao lado – melhor garantir o conforto e bem estar de todos!

Outro item a que demos vazão a nossos desejos foi ter uma mesa de jantar rústica com madeira de demolição. Não precisava ser grande, não precisava ser da melhor loja, não precisava ser cara. Nossa única exigência era que estivesse livre de pragas como brocas e cupins. Tudo devido ao fato de que ela partilharia o mesmo teto com os livros que já se proliferavam por conta própria e que não queríamos ver virando banquete para o paladar desses monstrinhos.

O último item de nossa lista eram as estantes. Queríamos uma (ou várias!) que fosse robusta, espaçosa, que tivesse uma presença legal. A primeira dificuldade, e que permaneceu em toda nossa busca, foi de encontrar estantes! Em um mundo pautado cada vez mais por uma virtualização ou digitalização, o material impresso parece vir perdendo espaço de fato que não há mais um móvel que lhe dê destaque. Antes as estantes ainda eram mais fáceis de serem encontradas porque serviam também para apoiar a televisão, mas com as novas TVs sendo afixadas diretamente na parede ou em móveis mais estreitos, a estante parece ter perdido sua utilidade…

As poucas estantes que encontramos tinham um ou os dois problemas dentre os seguintes: eram frágeis demais, de forma que dificilmente conseguiriam aguentar estar repletas de livro, e eram caras.

A busca foi ficando muito difícil de forma que resolvemos comprar pela internet um par de estantes de metal de fácil montagem. A ideia original, por terem sido bem baratas, era organizar os livros enquanto encontrávamos um “lar” apropriado para eles. O fato foi que após montadas e os livros dispostos em suas prateleiras, simpatizamos com as estantes.

Pela primeira vez em muitos anos os livros estavam um ao lado do outro, não em cima uns dos outros; estavam abertos, disponíveis, não fechados, confinados. As estantes, mais do que servir para guardá-los, serviu para dar acesso a eles. Suas prateleiras tornaram-se como que degraus que permitiam subir e descer entre um universo e outro, ou em sua horizontalidade, atravessar todo um mundo repleto de histórias.

Os livros nas estantes. Os sonhos nos livros.

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