Tęsknię za Tobą

Por Vanessa Henriques

Engraçado essa coisa de aprender outro idioma. Muitos dizem que a gente tem que fazer isso, que ele abre portas no trabalho e nos estudos, ajuda a nos relacionar melhor, exercita nossa cabeça, ajuda em viagens. Não duvido de nada disso, e por experiência própria acho tudo isso verdade.

Há, no entanto, um bloqueio natural em se expressar em outra língua. Não importa o quanto você leu, o quanto estudou e até mesmo o quanto digam que você não está fazendo papel de bobo. Muda a entonação, a articulação e mesmo os gestos podem mudar — e por isso que é sempre uma surpresa ouvir seu professor de idioma falando outro idioma (que nem precisa ser o pátrio). Seria outra pessoa? Não exatamente. Arriscaria que é uma versão de si mesmo, tentando se fazer entender e entender outro mundo a sua volta.

E por falar em versões de si mesmo, há que se separar o joio do trigo. Depois de muitos anos estudando, adquirimos certa familiaridade com o idioma, passamos a ouvir melhor, compreender melhor e até mesmo pensar direto na língua, sem fazer aquela tradução simultânea mental. Nesse diálogo com si mesmo adquire-se uma fluência extraordinária, e até mesmo uma pequena arrogância. Pena que, na maior parte das vezes, ao abrir a boca o domínio da língua vai pro espaço — e o mundo jamais conhece nossa faceta poliglota.

Tenho a impressão de que sou extremamente bipolar em outros idiomas. Se em alguns dias consigo cravar uma pronúncia exemplar, com a leveza de um nativo, em outros retomo à turma do básico. É o famoso “esquecer em casa” — onde, aliás, eu falo sempre português, então nem sei se seria o caso — que, quando acomete o indivíduo, deixa um rastro de vergonha e insegurança.

Isso pode ser um problema considerando que ultimamente tenho usado muito outros idiomas no trabalho. Recebo e-mails que começam com “Hi, hola, olá”, nos quais latinos e anglo saxões em cópia se esforçam para entender a mensagem do interlocutor. Tenho reuniões frequentes em inglês e espanhol (e, mais vezes do que gostaria, em portunhol), nas quais geralmente consigo me virar, mas já passei pelo pânico de não entender nada do que a pessoa falava.

Tive também boas surpresas. Viajei a Moçambique no final do último ano onde se fala um lindo… português — um alívio depois de passar pelo inglês difícil de Johannesburgo. É engraçada a sensação de falar português em outro país. Parece que a sua cabeça já se prepara para pensar e falar de outro jeito, afinal você não está no Brasil. Arrisquei no começo um tímido português gringo, até me adaptar a continuar falando a minha própria língua (por mais estranho que isso possa parecer).

Não só as pessoas falavam português, como também carregavam uma certa empatia natural por você ao descobrir esse laço em comum. A língua tem esse poder, de unir mundos desconhecidos. E também o de manter-nos em contato com o que conhecemos, com o que nos identificamos.

Muitos quilômetros de distância me separam da amiga que inspirou esse texto. Tudo bem, o coração é infinito, ele chega até lá. Pela nossa língua nos comunicamos, trocamos mensagens no português que para ela soa como casa. E a saudade é o idioma nativo.

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