De cronista e louco, todo mundo tem um pouco

Por Vanessa Henriques

mafalda

Aniversários sempre nos fazem pensar. Mais um ano que passa, quantos vêm pela frente, o que se esperava ter feito até aqui e tantas outras questões passam pela nossa cabeça. Três anos e 136 postagens depois, cá estamos aqui, novamente refletindo sobre a nossa existência.

Escrever é muito menos glamouroso do que se pensa. Uma escrivaninha de canto, um computador e uma xícara de café são coisas que vêm à cabeça quando se diz “tenho um blog de crônicas”. Ter um blog de crônica significa muitas vezes sofrer por não ter assunto toda semana — apesar de não ter editor e nada nem ninguém que te obrigue a escrever —, escrever textos apressados no trabalho (intercalando planilhas de excel para não dar bandeira) e mesmo escrever à mão, no ônibus (tem lugar melhor pra se inspirar?), mensagens criptografadas que podem ou não ser entendidas mais tarde quando se estiver na frente do computador (sem café e sem escravinha charmosa).

Para além dos problemas, digamos, técnicos, como tempo e assunto, há uma outra gama de questões. Escrever sobre o cotidiano significa se expor imensamente: expor pensamentos, situações, expor até mesmo aqueles que convivem intensamente com você e se sujeitam a ser, vez ou outra, o assunto da vez. Todo cronista é exibido. Não porque queira, mas porque geralmente acaba buscando sua inspiração no que lhe acontece.

A crônica tem por pretensão ilustrar de forma bem-humorada o mundo caótico do cotidiano. Mas isso é feito sob a ótica de uma pessoa que tem suas visões de mundo e suas loucuras consolidadas — e a loucura à que me refiro aqui é aquela saudável, da que todo mundo tem um pouco junto com seus dons para medicina. E, por mais estranho que possa parecer (ou talvez nem tanto), os leitores se reconhecem nessas situações, nesses relatos. Ou reconhecem conhecidos. Ou talvez não se reconheçam, mas acham graça da forma como foi contado. Vai saber o que vocês leitores pensam e o que os fazem voltar aqui!

Mais do que a visão de escritor maduro, sensato, que se recolhe em seu canto com sua xícara de café, reconheço em mim o escritor caótico, que tem outro emprego para pagar as contas, que se inspira nas longas horas passadas no transporte público, e que vem à público compartilhar suas loucuras na busca de apoio.

Isso é privilégio do cronista? Nem pensar. Todos temos nossas doses de loucuras e vivemos em nosso manicômio particular. O que ele faz de diferente é colocar isso no papel (ou na tela), buscando trazer mais gente para sua loucura. É um louco manso, sociável, e que se entrega na primeira linha de conversa.

Não há receio em dizer que todos temos esquisitices, umas dignas de nota, outras nem tanto. E se todos vivemos em nossa loucura particular, é sempre bom visitar novos hospícios.

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One thought on “De cronista e louco, todo mundo tem um pouco

  1. Ótima crônica. Deixo uma citação: “loco, loco, loco melo”. Gostei muito da crônica como um todo, e encontro no seguinte parágrafo uma síntese dela: Mais do que a visão de escritor maduro, sensato, que se recolhe em seu canto com sua xícara de café, reconheço em mim o escritor caótico, que tem outro emprego para pagar as contas, que se inspira nas longas horas passadas no transporte público, e que vem à público compartilhar suas loucuras na busca de apoio.
    Parabéns novamente pelo aniversário do Croniquices

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