Por favor, chuva ruim

Por Vanessa Henriques

Estamos no meio do inverno, faz um calor de 25 graus lá fora e não há previsão de chuva tão cedo. No entanto, como boa paulistana que sou, não deixei de carregar minha sombrinha na mochila um dia sequer na semana. Paranoia? Mistificação? Não sei, mas a doutrina da minha mãe começou cedo e foi das boas.

Não consigo me lembrar de quando comecei a carregar sombrinhas comigo. Deve ter sido nos tempos de escola, provavelmente. Só para não pegar chuva do portão até o carro da minha mãe, provavelmente. Só sei que desde então não parei: já tive sombrinhas coloridas, estampadas, pretas, azuis, arco-íris, de alumínio, de ferro, de todos os tipos.

Item essencial na terra da garoa, alguns dirão. Concordo. Item de moda dirão outros. Não tem como negar. É só apontar uma nuvem negra no céu que aparece um camelô vendendo guarda-chuva: dos maiores, dos menores, com bolinhas, sem bolinhas. Há um certo estilo paulistano nisso — rebatendo aqueles que acham que só tem cinza por essas terras.

O fato é que eu ando sempre com o meu. Porque eu tenho pavor de tomar chuva? De estragar a chapinha? Não exatamente. Pelo mesmo motivo pelo qual as meninas do Leblon não olham mais para mim: eu uso óculos. E não tem coisa mais chata para um míope do que ficar com as lentes todas ensebadas com pingos de chuva (ainda mais quando eles se misturam com o suor do rosto e embaçam).

Tudo bem que se a chuva for de vento, ou vier assim meio de lado, não há guarda-chuva que segure a barra. E, desgraçadamente, tem sido assim nas últimas vezes: quantos dias não me vi com o rosto completamente molhado mesmo estando debaixo do abrigo do ponto do ônibus e com a sombrinha aberta?

Sem contar a novela do guarda-chuva grande. Eu ando com a sombrinha sempre na bolsa, mas tem dias que já amanhece chovendo, certo? Ou então a moça do tempo diz que tem 90% de chance de chover. Já saio de bota e com o maior guarda-chuva que tenho a tiracolo, mas tenho uma certeza: não vai chover. É sempre assim, quanto maior a preparação para o dilúvio, maior o sol que racha.

Há também sempre a questão do esquecimento. Sombrinhas são feitas para serem esquecidas em mesas de bares, porta de lojas, casas de conhecidos. Tanto é que tenho amigos que se recusam a gastar mais do que R$5 numa sombrinha, pois sabem que mais dia, menos dia, ela terá escapado pelas dobras do espaço-tempo — junto com todos os grampos e elásticos de cabelo.

Não costumo perder sombrinhas, mas a última que tive perdi num vulcão. Sim, você leu direito, no vulcão. Tá certo que ela não foi exatamente engolida por um mar de lava, mas houve toques de drama. Tive tempo de visitar um vulcão durante uma viagem a trabalho, mas claramente não estava preparada para isso. Coloquei uma calça e uma blusa de moletom, agarrei minha sombrinha, e fui feliz e contente para lá.

Chegando lá chovia e ventava muito (mas muito mesmo!), e a sombrinha tava lá, firme e forte fazendo o seu papel. Mas foi demais até para ela: as varetas entortaram todas, e ele ficou tristinho, meio cabisbaixo. Era o fim para ele.

Comprei outro e segui em frente. Não sei se o novo terá uma grande história para contar, como o último, mas espero que ele esteja à mão quando eu precisar — nem que seja para trazer o conforto de saber que não ficarei na mão. O último não viu o vulcão, quem sabe ele tem mais sorte?

 

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