Toda de branco

Por Vanessa Henriques

— Em pensar que nessa época eu era noiva. Noiva, acredita? É muito estranho dizer isso.

— Nossa, é péssimo.

Começou assim, a minha pontinha de dúvida. Ao ouvir esse diálogo, resolvi ficar quieta, afinal eu mesma, recém-noiva, ainda não me sentia confortável para usar esse termo. Aliás, na semana do pedido, zombava com uma amiga o fato de terem chamado meu namorado de “seu noivo”.

Qual é, afinal, o problema em dizer que está noiva? Tem o clássico medo de parecer pedante, o de parecer moça de família, o de parecer muito religiosa, o de parecer muito careta, o de parecer submissa, o de parecer aparecida, e por aí vai. Não sei se uma palavrinha só aguenta tanto peso — peso, aliás, que é nosso, só nosso, e que ela vai carregando pelas rodas de conversa por aí.

Para driblar o incômodo, eu e meu noivo decidimos adotar um novo vocábulo. Tinha o clássico ‘namorido’, mas que não tinha correspondente para o feminino. Acertamos em ficar com ‘namoiva/o’, mas o péssimo som da junção das palavras dificultou um pouco — sem contar que internalizei namovia e já não consigo saber se estou falando certo ou errado. Fomos alternando, sem perceber, entre namorada(o) e noiva(o), e já não estranhamos tanto quando nos tratam como se fossemos casados.

Mas voltando ao diálogo lá de cima, o que me incomodou é que o comentário foi feito por duas mulheres que se consideram progressistas, feministas, e quantos ‘istas’ você quiser acrescentar aqui. Aí é que a coisa ficou feia: será que é tão horrível dizer que você tem um compromisso com alguém que você ama, do lado de quem se imagina por muitos anos? Que tipo de conclusões se tira disso? (e, principalmente, eu ainda posso me considerar uma ‘ista’ também?)

Se ficou a dúvida, vamos lá então. Estar noiva de alguém não quer dizer manter uma relação submissa, querer casar virgem, assumir todas as tarefas de casa. Significa que estou noiva, e ando por aí com uma aliança na mão direita com muito orgulho. Penso em festas, penso em vestidos, mas penso principalmente na vida que vem por aí, com a calma de quem sabe o que está fazendo. Não há o que temer, é só uma palavra.

Escrevo esse texto como uma afirmação, para lavar a alma, pois eu já estive do lado delas. Mas agora estou do lado de quem acha um saco trocar o faça isso por faça aquilo. Faço se eu quiser, quando quiser, do jeito que quiser. Com quem, eu já sei.

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