Venha provar, freguesia

Por Vanessa Henriques

Desde pequena, sempre gostei de ir à feira. Fosse para ganhar um pastel com suquinho na embalagem de carrinho ou uma fita K7 da Xuxa, era o passeio de todos os domingos. Subíamos o escadão logo ao lado de casa e chegávamos na longa feira que cortava o bairro.

 Quando eu digo longa, eu quero dizer longa mesmo. Eu nunca cruzei aquela feira à pé. Lembro-me da época que minha mãe implicou com esse lado da feira (estávamos perto de uma das pontas) e nós pegávamos o carro para comprar na outra ponta. Não sei se minhas pernas eram pequenas ou a paciência da minha mãe, curta, mas me lembro de que precisava ir de carro para chegar na outra ponta — ou ao menos é assim que me recordo da história (mãe, qualquer coisa me corrige nos comentários!).

O tempo foi passando, as feiras mudando, eu mudei — de casa e de espírito mesmo —, mas não perdi o gosto pela feira. Acho que tem uma coisa de criança, de ver todas aquelas verduras esquisitas que não sabemos o nome, todas aquelas frutas, aquelas cores, e os indefectíveis berros dos feirantes.

Hoje a feira adquiriu outro significado: é a promessa de uma semana saudável. Encher a sacola de frutas e verduras, por mais que você não faça nada de extraordinário com elas, já te dá a sensação de alimentação equilibrada. Quando não dá tempo de ir, a sentença está dada: pouca salada e muito macarrão (instantâneo, se for uma semana braba), câimbras noturnas pela falta de banana e a geladeira com aquelas cores meio pastéis das batatas que sobraram da última semana, da manteiga, do pão e tudo o mais que sobrou que não tem cores de feira.

A feira é também garantia de economia, e esse é um assunto que me é muito caro. Não sou de pedir desconto, mas sei que se der uma pernada, encontro o menor preço possível. Quer me ver contrariada, me pede para comprar banana no mercado. “Como assim R$7 numa dúzia de bananas, eu paguei R$2,00 semana passada na feira!”. “Ok senhora, mas você vai querer nota fiscal paulista?”.

Tudo isso para dizer que essa semana eu não fui na feira, então provavelmente esse diálogo me espera na boca do caixa do mercado, comprando bananas depois de uma noite de câimbras lancinantes. A situação de congelados é estável, propícia a sofrer baixas durante o percurso. Pode não ser uma das minhas semanas saudáveis, mas pelo menos me livrei da tentação do pastel e do caldo de cana.

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