Santuário

Por Vanessa Henriques

Cresci em uma casa com cinco pessoas, então não tô acostumada a ficar sozinha. Silêncio em casa? Difícil.  Ou era o barulho da TV, ou a conversa no telefone, a panela de pressão na cozinha, e por aí vai. Mesmo quando se queria um momento de paz, era mais fácil os planetas se alinharem do que calhar de quatro pessoas não estarem em casa.

Aí eu me mudei, e de repente éramos dois. Eu e mais um. E não me orgulho muito disso, mas sou responsável por mais de 50% do barulho. Tá, uns 80%, mesmo quando o outro um precisa de paz. Sabe como é, velhos hábitos.

Só que esse fim de semana era só um. Uma, no caso. Logo de manhã, tratei de encher o bebedouro dos pássaros, cortei um mamão só para eles. Se é para ficar sozinha, que seja com os piados esfomeados dos passarinhos.

Apesar do pouco barulho na casa, a cabeça ia a milhão. “Será que eu passo mais roupa? Será que tento um novo projeto no trabalho? Faz tempo que não vejo minha vó. E as crônicas, meu deus!”. Silêncio na cabeça? Difícil.

O telefone tocou. Corri para atender, queriam falar com o Otávio. Não tem ninguém com esse nome. Ok, volto pro almoço. O telefone toca novamente. “Agora deve ser minha mãe”, penso. Atendente da vivo. Por menos de R$2,00 por dia posso ter chamadas ilimitadas para celulares vivo. Enquanto ele desfia o rosário do telemarketing, penso para quantos celulares vivo costumo ligar, chegando à conclusão de que quase nenhum. Obrigada, Jefferson, não tenho interesse.

Retorno para o almoço. Falho miseravelmente na execução de um peixe empanado. Ainda bem que essa refeição era só para mim. E o gosto tava ótimo, viu? Sento-me próximo à janela, vejo que os passarinhos estão bicando ferozmente as frutas. Veio um. Veio mais um. Olha, esse é diferente. Epa! Esse grandão eu nunca vi! Ai, e se ele entrar? Fecho a janela.

Mais uma ligação. O nome tava certo desta vez, só que o interessado não está. Quem gostaria? Cinthia, da Top Therm. Pois vamos falar de coisa boa então, quer deixar recado? Não quis. Logo em seguida ligaram perguntando sobre a Ana Linhares.

Tomei banho pensando em quantas vezes essas pessoas ligaram aqui para casa até descobrirem que o Otávio e a Ana Linhares não moram aqui. Afinal, eu quase nunca ouço esse telefone tocar, e hoje ele deu para não dar sossego.

Apesar de todos os planos mentais feitos, obviamente cumpri pequena parte deles, em geral relacionados com a arrumação da casa. Eta mania besta de achar que em um dia vou resolver tudo que não fiz nos últimos meses. Pelo menos marquei de almoçar com minha vó amanhã.

O alarme do celular dispara, cortando o cochilo no sofá. Hora de guardar o iogurte. No fim na noite, finalmente uma ligação para mim. A melhor de todas, aliás, dizendo que está tudo bem e que amanhã está de volta. Ainda bem, pois não aguento mais todo esse silêncio…

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