Prato frio

Por Vanessa Henriques

O dia havia sido escolhido com esmero. Depois de quase um mês de enrolação e duas visitas frustradas, o homem do conserto prometeu que viria olhar a máquina de lavar. Não que a palavra dele valesse de alguma coisa, mas a vontade de acreditar é sempre maior do que a razão.

Pediu folga do trabalho. A mulher estava viajando. Só sobrou o cachorro de testemunha e companhia. Almoçou bem e se preparou para sair. Amarrou a corrente no cachorro e saiu sem olhar para trás.

O homem do conserto, desta vez, viria. E ao vir, daria com a cara na porta, pensou, com um sorriso de satisfação. Andou por horas a fio, até encontrar um banco num bairro distante, onde ninguém soubesse seu nome. Comprou o jornal, e o folheou sem esmero. Voltou de noite, debaixo de chuva e tranquilo.

O plano teria dado certo. Certo é um conceito relativo, pensou, ao olhar a pilha de roupa, agora acrescida de suas vestes molhadas pela chuva. Tomou um banho, jantou, ligou para a mulher. Desconversou sobre a máquina.

O homem do conserto teria mesmo vindo? Ou receberia uma ligação esbaforida do homem a qualquer instante, se desculpando por não ter conseguido, mais uma vez, cumprir com o compromisso? O plano teria se tornado, então, mais uma espera inútil ou uma caminhada longa demais.

Esticou o olho para a tela do celular. Nenhuma mensagem ou ligação. Esticou-se até a cozinha e falou com o porteiro. Não soube dizer se alguém o procurou. Pensou em ligar para o homem, meio disfarçando, para ver se ele daria uma desculpa esfarrapada ou se esperaria as desculpas dele por não estar em casa na hora marcada.

Mas isso seria dar bandeira demais. Esperaria por ele. Se ele precisa do dinheiro, se ele se incomodou com a minha ausência, ele que deve ligar, pela sua própria lógica.

Sacou um avental atrás da porta. Separou as roupas por cor, e começou a esfregá-las, uma por uma, num movimento maquinal. A ligação viria, mas não sabia quando. E agora era  tarde demais para encontrar outro homem do conserto. E a mulher traria mais roupas sujas na mala.

Num ato de fúria, desses ridículos feitos na solidão da ausência de testemunhas, chutou a máquina de lavar. O cachorro ganiu, da sala. E ele prometeu a si mesmo não entrar mais nesse negócio de pequenas vinganças.

Resposta

  1. De fato a vingança é um prato que se come frio…tadinho kkk
    achei ótima a crônica!!

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About the author

Sophia Bennett is an art historian and freelance writer with a passion for exploring the intersections between nature, symbolism, and artistic expression. With a background in Renaissance and modern art, Sophia enjoys uncovering the hidden meanings behind iconic works and sharing her insights with art lovers of all levels. When she’s not visiting museums or researching the latest trends in contemporary art, you can find her hiking in the countryside, always chasing the next rainbow.