Passatempo

Por Vanessa Henriques*

 

Mariana trabalhava em uma pacata loja situada em uma movimentada avenida. Filha do dono, passava as tarde atrás do balcão atendendo dois ou três clientes, às vezes mais, às vezes menos. Apesar de vivermos em um mundo naturalmente apressado, pouca gente tem tempo de passar no relojoeiro, pensava.

Enquanto ficava ali, a postos, observava o que se passava na rua. Quanta coisa acontece na rua quando não podemos estar nela, lamentava a menina, espiando de rabo de olho o cuco. Ainda eram 15h20, faltavam muitos tique-taque para ela poder sair dali.

O sol ardia lá fora. Cada qual a sua maneira procurava se refrescar: motoristas usavam folhetos de imobiliárias para se abanar, motociclistas enxugavam o rosto com um lenço, suando debaixo de suas roupas negras, enquanto ciclistas usavam o mínimo de vestimentas possível.

Na calçada, os pedestres se amontoavam debaixo da sombra de uma grande árvore, aguardando impacientes seu ônibus passar. Algumas moças passavam de sobrinha, tentando amenizar esse sol de meio-dia.

Mas não era sol de meio-dia, era sol das 15h35, como Mariana checou novamente. Faltava tempo para o cuco aparecer. Lá dentro ouvia-se o tilintar das ferramentas de seu pai, que se esforçava para consertar um carrilhão que não queria ser consertado.

Veio um cliente afobado:

— Boa tarde. Será que teria como trocar a bateria rapidinho? Sabe como é, estou cheio de pressa, preciso buscar meu carro na oficina, e depois minha filha na escola e….

— Só um minuto, disse ela, sem se deixar contaminar pela urgência reinante na rua.

Levou o relógio para o pai. Ele abriu, retirou a bateria, viu que estava tudo em ordem. Quis aproveitar para polir uma pecinha, ao que Mariana advertiu:

— O moço está com pressa…

— Todos estão sempre com pressa nessa cidade, resmungou o pai.

Todo mundo tem pressa mesmo, pensou a menina. Inclusive eu!, resmungou indignada. Viu o cliente ir embora satisfeito, apressando o passo para conseguir atravessar a larga avenida.

Enquanto o acompanhava até perdê-lo de vista, Mariana notou que uma senhora aguardava pacientemente sua vez de atravessar. Apertava os olhos, tentando enxergar o farol, enquanto se abanava com um lenço colorido. Muitos pedestres passaram por ela, afinal não havia nenhum carro vindo naquele sentido, mas a senhora continuava ali, aguardando, apesar do calor.

Mariana não conseguia se conformar com a paciência daquela senhora. Estaria o farol quebrado? Espiou o cuco: 15:45. Vamos ver quanto tempo demora para abrir, pensou. Se distraiu em pensamentos e, quando se deu conta, o cuco já havia saído da sua casinha e a senhora estava à sua frente, no balcão, aguardando a menina voltar a si.

— Pois não?, disse assustada.

—  Tem como consertar esse relógio? Já faz uns dias que ele não marca a hora direito… Não me incomodo de viver fora do horário, mas meus netos reclamaram que eu sempre me atrasava para buscá-los na escola, sabe como é.

Mariana acenou com a cabeça. Entendia perfeitamente o ponto de vista — dos netos, é claro. Levou o relógio ao pai, que ainda brigava com o carrilhão. Ele resmungou pela nova interrupção, e pediu para a senhora voltar no dia seguinte.

A menina aproximou-se do balcão e repassou o recado. A senhora assentiu e, em tom de brincadeira, com a leveza de quem não liga para ponteiros e tique-taques, retrucou:

— A que horas?

E saiu, no seu passo lento. O cuco marcava agora 16:15. Só mais quarenta e cinco minutos, uma nova badalada do cuco e as horas serão minhas novamente, pensou Mariana. Buscou alento no barulho e nas pessoas na rua, pensando no que faria ao sair dali.

A campainha soou denunciando a chegada de um novo cliente. Era um homem alto, discreto, que parecia ter saído de outro lugar, menos daquela avenida, tamanha era a sua calma. Não parecia com nenhum dos clientes habituais da loja, pensou a menina, fitando-o discretamente. Olhou com muita paciência os diferentes mostradores, até se encantar por um específico.

Pediu ajuda a Mariana, que o atendeu sem esmero, quase o expulsando. Ele percebeu que a menina já não podia mais esperar o horário de saída, e resolveu puxar assunto:

— Gosta de trabalhar aqui?

— Não tenho muito o que gostar ou deixar de gostar, trabalho com meu pai — ela não gostava de conversar com clientes, especialmente às 16:45.

— Eu acho que gostaria de trabalhar em um lugar como esse, disse ele, provocando a menina.

— Acho que pensa isso porque não trabalha em uma relojoaria.

— Tem razão, deve ser exatamente por isso. Mas sempre tive a impressão de que lojas como essas são um alívio em meio ao caos da cidade. Pode reparar, apesar da quantidade de relógios penduradas por essa parede, não consigo sentir aqui dentro a mesma pressa que sei que sentirei ao pisar fora daqui.

— Pois é, aqui não acontece nada, como lá fora, onde há o que se fazer. É como se fosse um lugar fora do tempo, o que é uma grande contradição se você pensar na quantidade de ponteiros que nos rodeia.

— Você tem razão, talvez seja uma dimensão vazia de tempo. De qualquer forma, tenho um palpite: acho que você um dia vai sentir falta dos ponteiros e dos cucos e, principalmente, da calmaria de lugares como esse.

Ela olhou com a desconfiança típica de todo jovem ao ouvir conselhos de um adulto, e assentiu por educação. “Talvez”.

— Não quero mais tomar seu tempo, sei que ele é precioso. Volto outro dia e compro o relógio, disse o agora ex-cliente, sua voz sendo engolida pelo barulho de uma moto.

O pai saiu de sua oficina, estranhando a calma da menina, que estava absorta em pensamentos:

— Mariana! Não viu a hora? São 17:30, já podemos fechar.

Ela olhou à sua volta, até a rua parecia mais calma. Havia mesmo se perdido nessa conversa de ponteiros, pensou. O pai fechou a loja e a deixou sair sozinha pela rua, portanto que retornasse para a casa logo mais.

Escolheu o melhor banco de uma praça, e ficou observando as pessoas. Ficou observando o barulho dos carros e a urgência daqueles que tinham relógios mas não se atentavam para as horas. Gostava daquilo, e agora se sentia parte deles.

Com o passar dos minutos percebeu que pouco importava estar dentro ou fora da loja. Ela, que era feita de cucos e de ponteiros, carregava a paz de quem observava a multidão de fora. Longe de se incomodar, sentiu orgulho dessa capacidade, que parecia tão em falta entre quem passava por ali.

Voltou para a casa sem pressa, ouvindo as badaladas do sino da igreja.

 

*Texto escrito originalmente para o Concurso de Contos Machado de Assis, do SESC – DF

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