Dez para as oito

Por Vanessa Henriques*

Acordei outro dia ainda sonolenta. Arrastei-me até a cozinha, onde preparei o café sem pressa, quando o olho desviou para o relógio na parede. Estava bem adiantada, poderia seguir sem sobressaltos, até inventar um pouquinho, como fazer uma tapioca caprichada ou tomar uma segunda xícara de café.

Assim o fiz, e segui meu rumo. Percebi, pela hora que cheguei ao trabalho, que tinha sido enganada pelo relógio, que começava a atrasar, provavelmente clamando por pilhas novas. Ao chegar do serviço, dei de cara com ele gastando tique-taques em vão, afinal ficou cravado em dez para as oito e de lá não mais saiu.

Mas é claro que o relógio estava quebrado, parei para refletir. Afinal, não conseguia me lembrar do último café da manhã que tomei com tanta folga (exceto finais de semana, e mesmo assim, olhe lá!) nos últimos dias. Meses talvez. Acostumei-me a olhar para o relógio, me distrair com uma segunda fatia de pão e, pronto, já tinha que cortar outra tarefa da lista matinal, senão me atrasaria.

Pensando bem, quando eu me tornei tão atrasada? É fato que não sou daquelas que atrasa em horas, mas em uns bons quinze minutos, já virou quase lei. Talvez pelo fato de não bater mais ponto. Talvez porque os ônibus estejam cada vez mais imprevisíveis. Mas mais provavelmente porque eu andei relaxando com relação ao assunto.

E quando falo em relaxar, não digo com relação ao respeito às horas e compromissos marcados. Bom, isso também. Mas me refiro aqui a se acostumar a não ter mais tempo para mim mesma, para as coisas bobas e tão importantes do cotidiano como se dar ao luxo de preparar uma tapioca.

E mais do que se dar um tempo, anda faltando também tempo suficiente para fazer o que precisa ser feito. A impressão que tenho é que estamos sempre na marca do pênalti, nos 45 minutos do segundo tempo, valendo o campeonato, e se qualquer coisinha dá errado, o atraso é de placa: borrou o batom? Atrasou. Mudou de ideia com relação à roupa escolhida? Atrasou. Voltou para pegar o guarda-chuva? Atrasou (e não choveu).

Abordei o assunto numa conversa de bar — dessas que não tem hora para acabar —, comentando com uma amiga sobre como nos acostumamos com uma vida essencialmente ruim, de correrias, prazos, minutos perdidos e pouco prazer. Prova disso foi o fato de levarmos mais de um mês tentando chegar numa data e horário que todos pudessem estar presentes. Não estava sozinha, a mesa consolou.

E nem pensava estar, mas queria sair dessa e trazer todo o mundo comigo. O fato é que nessa briga com os minutos, andamos levando a pior. Troquei as pilhas do relógio, na esperança de dançar uma valsa ao invés de entrar no ringue a cada dia. Coei um pouquinho mais de café e, só de pirraça, saí sem arrumar a cama, poupando aí alguns minutos para usufruir mais tarde.

*Texto escrito originalmente para o Concurso de Crônicas Rubem Braga, do SESC – DF

 

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