Mentiras coletivas

Por Vanessa Henriques

Noite dessas eu voltava do trabalho para casa de trem. Sabia que corria o risco de ir mais apertada que sardinha em lata, mas que também seria o jeito mais rápido de chegar ao conforto do lar, ainda que desconfortavelmente.

O horário, no entanto, ajudou. Saí mais tarde do trabalho, peguei o metrô sem sobressaltos, e até a infernal transferência na estação Pinheiros parecia tranquila. Não só consegui pegar o trem que já bufava na plataforma, como ainda consegui me sentar. Inacreditável.

As portas se fecharam, para o alívio coletivo dos passageiros – que sabiam que dentro de mais alguns minutos os retardatários da transferência chegariam, esbaforidos, lotando o vagão. Tudo na paz, trem até que silencioso, quando toca um celular.

Uma senhora atendeu o irritante chamado, já bufando mais que o trem. Soltou um “oooi” sem vontade para o seu interlocutor. Ninguém deu muita bola. “Tá boom”, resmungou mais uma vez, agora mais alto. Estação Hebraica-Rebouças, trem ainda vazio.

Já sem paciência, ela disparou sem rodeios: “OLHA, o trem tá cheio, eu não consigo me segurar e falar no celular, depois a gente se fala, tá??”. Os passageiros entreolharam: o vagão estava quase vazio para os padrões do horário. A voz alta da mulher chamou a atenção para a mentira, e alguns começavam a olhá-la com desconfiança.

Ela continuava, pelo visto sem que seus apelos fossem ouvidos. “Sim, tá cheio, sabe como é o trem, não tem quase onde se segurar”. Era uma mentira deslavada, e cada vez mais passageiros prestavam atenção na conversa.

Por mais que ela mentisse, não conseguia se desvencilhar do tipo a importunando no telefone. Ela já havia dito que o trem estava cheio (o que era mentira, é verdade, mas poderia ser muito possível) e o sujeito insistia. Seria um ex-marido? Um filho pedindo dinheiro pra ir numa festa? Um compadre insistente?

Até que finalmente ela perdeu a paciência, repetiu a ladainha do trem cheio, emendou um “beeeijo, tchau” e desligou o aparelho. Até aí, ao invés de olhares de reprovação, já havia ganho o vagão, que se solidarizava com ela. “Que insistente, não sabe como é o trem essa hora?”, puxou papo a senhora sentada ao lado da mulher (sim, até lugar tinha vagado).

Um moço de pé, logo ao lado, reclamou também do horário: a senhora cansada, voltando sabe-se lá de onde, e o cara importunando? Ela assentiu com a cabeça, acolhida. O vagão estava com ela.

Mais algumas estações, e o telefone volta a tocar. Pela cara dela, era o mesmo número. Todo mundo aflito, dizendo com os olhos “não atende, ele tem que entender que no trem não dá pra falar”, sendo que restavam poucos passageiros de pé, alguns até por opção. Nem se incomodaram com a musiquinha frenética do toque do celular tocando cada vez mais alto.

A senhora já havia ganho a simpatia de todo mundo, todos cúmplices de sua mentira. Contava efusivamente sua história, e todos muito crédulos a ouviam, sem lembrar que, assim como ela havia mentido pro fulano, nós poderíamos ter sido as próximas vítimas. Não importava: a solidariedade dos usuários de transporte público em uma cidade com mais de 11 milhões de habitantes é maior do que qualquer mentirinha cotidiana.

Saltei na Berrini, quando finalmente o trem começou a encher.

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One thought on “Mentiras coletivas

  1. É uma situação tão frequente, não poder falar quando se está de pé no meio do povo no trem…que quando é preciso dar uma desculpa pra não atender no próprio trem, esta é a desculpa perfeita rsrs

    Outra que o povo adora dizer é que se está na estação Tatuapé, quando o metro mal saiu da estação Itaquera…só tem que desligar antes do “next station” rs

    Como sempre Vanessa as suas crônicas do transporte público são bem engraçadas rs grande beijo

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