Velha roupa colorida

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Por Vanessa Henriques

Se tem uma sensação melhor do que comprar roupa nova, é aquela que acompanha a de colocá-la no armário, reinando sobre as velhas. É uma sensação fugaz, nós sabemos, afinal usaremos a nova na primeira oportunidade, e no dia seguinte olharemos ingratas para o armário lotado, repetindo baixinho, com vergonha do impropério: não tenho roupa…

E ainda que achemos que a maioria das nossas roupas não prestam, por algum motivo místico elas se mantém no armário por um, dois, dez anos. Além da necessidade, claro que tem um fator emotivo aí no meio, e ele se revela em dias de arrumação.

Roupas não são apenas roupas: elas ajudam a contar a nossa história — e dá-lhe nostalgia, lágrimas de crocodilo e promessas de regeneração enquanto se agarra àquela blusinha já toda amarelada que usou no primeiro dia da faculdade. Acho que é por isso que é tão difícil se livrar de certas peças em “petição de miséria”, como diria minha mãe, enquanto outras vão embora facinho, enquanto se comemora um novo cabide vazio.

Muitas dessas peças não tão queridas são novas, e aí começa o novo dilema: doo? Faço pano de chão? Passo para minha irmã? Todas opções válidas. E, ultimamente, outra moda que ganhou força ajuda nessas horas: os sites de venda de roupas usadas.

Entrei num desses sites para vender uma calça que comprei num impulso e nunca usei. Enquanto passeava pelas páginas me diverti em ver o contorcionismo das outras vendedoras tentando me convencer a comprar itens “usados pouquíssimas vezes” e “super na moda” que provavelmente não eram lá muito necessários e foram comprados em dias pouco inspirados.

Era o caso na minha calça infeliz: uma calça social preta com uma listra branca na lateral. No anúncio você leria “calça super curinga, usada poucas vezes, estilosa”, mas na verdade o que eu deveria dizer é que: comprei essa calça num sábado nublado numa promoção de uma dessas lojas que te convencem que você pre-ci-sa de uma calça da moda. Provei em casa, me olhei no espelho, e lá vi: parecia o Michael Jackson, ainda mais com um par de meias brancas que usava inadvertidamente na ocasião. Deixei ela num canto do armário por meses. Tentei desovar para a minha irmã. Ela chegou à mesma conclusão. Agora ela pode ser sua! Usada poucas vezes, super curinga!”.

Ainda que rendesse boas risadas, acho que não conseguiria me livrar da calça. Moral da história: menos compras em dias pouco inspirados (e de meias brancas), mais compras focadas e necessárias. Se a minha calça for o que você precisa, estou à disposição. E eu tô precisando muito desse cabide!

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