Sem limítrofes

Por Vanessa Henriques

Nada como um elevador cheio e uma cabeça de cronista vazia para surgir (roubar?) a inspiração. Um elevador funcionando no prédio inteiro, pessoas impacientes, procurando ou fugindo de assunto, mas certamente esgotando seu estoque de papo de elevador ainda na fila para o embarque.

Alguns minutos (séculos?) depois, chega o tão sonhado aparato. Embarco, num estilo CPTM, e aguardo pacientemente a chegada — obviamente, ele vai parar em to-dos os andares.

Eis que lá para o segundo andar adentra um grupo animado, e uma moça fala, toda espontânea “vou fazer exame de sangue hoje. Adoro fazer esses exames, eleva minha auto estima que é uma beleza”. Os amigos riram, o elevador todo ouviu e fez que entendeu, mas ela logo emendou “é que aparece lá que você está na faixa de bom/ótimo para tudo: colesterol, glicose, triglicérides. Me sinto com 20 anos!”.

Desci no meu andar, maravilhada com a simples e genial constatação. O que na sua vida está ótimo ou bom além do colesterol? Amor? Regular. Família? Médio. Trabalho? No máximo, limítrofe. É realmente um alívio pensar que ao menos aquele TSH está controlado.

Claro que isso nem sempre foi assim. A gente mal se aventurava a abrir aqueles envelopes cuidadosamente lacrados. Para os corajosos, dava de cara com o resultado: tireoglobulina, 3,5. Seria muito? Seria pouco? Só os deuses da medicina podiam bater o martelo: está tudo bem, tudo normal.

Hoje o resultado sai na internet, imprimimos no conforto do lar, já consultamos a faixa de desempenho e até dá tempo de se desesperar com os vereditos macabros do Google. Não deixa de ser um bom exercício de autoanálise e autoestima.

Você já começa a se punir lembrando daquele torresminho que fez subir esse colesterol limítrofe, planeja uma praia pra aumentar a vitamina D, e passa longe da sobremesa para baixar a glicose. Só não esquece de passar no médico para ele dar uma olhadinha. Vai que.

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About the author

Sophia Bennett is an art historian and freelance writer with a passion for exploring the intersections between nature, symbolism, and artistic expression. With a background in Renaissance and modern art, Sophia enjoys uncovering the hidden meanings behind iconic works and sharing her insights with art lovers of all levels. When she’s not visiting museums or researching the latest trends in contemporary art, you can find her hiking in the countryside, always chasing the next rainbow.