Caraminholas

Por Vanessa Henriques

Dá pra contar nos dedos das duas mãos a quantidade de vezes que fiz escova em minha vida. Não tanto por ser uma ativista dos cachos desde adolescente, e mais porque é uma das coisas mais chatas que existem.

Pra quem nunca fez, eu explico: consiste em ficar por um bom tempo (põe aí no mínimo uma meia hora) com uma pessoa puxando o seu cabelo com um secador quente e barulhento na sua cabeça para, no fim, seu cabelo ficar liso por alguns dias (horas, para as menos sortudas).

Não esqueço a primeira vez que fui submetida a essa tortura cosmética. Era um salão novo, recém aberto na minha rua, e a simpática proprietária — Karlinda era seu nome — demorou horas a fio para escovar aquele cabelo virgem de alisamentos. Foram no mínimo umas duas horas de sofrimento para exibir as madeixas lisas na formatura do colégio da minha irmã.

O resultado foi, no mínimo, curioso. Sentia como se estivesse usando uma peruca (sensação que tenho até hoje), não sabia os trejeitos de cabelo liso, aquelas jogadas para o lado, passar a mão e os dedos escorrerem, rapidinho, para as pontas.

Com o tempo meu cabelo diminuiu, me acostumei com o ritual da escova e tudo fluiu com maior facilidade. Porém não posso me esquecer de uma das piores sensações da minha vida: quando vi meu cabelo molhado e liso.

Sempre fui a única pessoa com cabelo cacheado na minha casa. Minha mãe, com cabelo liso, não sabia o que fazer com ele — lembre-se que eram os anos 90 e os cachos haviam sido banidos da face da Terra depois de uma longa e tenebrosa época de penteados bufantes.

Ela conseguiu me deixar de cabelo curtinho, estilo “joãozinho”, por alguns anos, o que facilitava as coisas. Mas eu insisti para que deixasse o cabelo crescer para poder usar elásticos e presilhas como as minhas amigas. Mal sabia eu o que me esperava neste mundo de cabelos longos.

Dada a rebeldia do meu cabelo adolescente (muito mais rebelde que eu), minha mãe colocou na (minha) cabeça que eu deveria fazer um relaxamento. Era uma técnica bem comum, para deixar os cachos mais controlados. Tive que esperar para completar 12 anos se não me engano, pois muitos salões não aceitavam fazer isso em crianças (era um alerta!).

Chegado o dia, me sentei na cadeira do cabeleireiro — um dos lugares que sempre me senti mais desconfortável na vida — na esperança de ter cachos maleáveis no dia seguinte. O cabeleireiro passou um produto muito fedido no meu cabelo e falou: “Pensa que vai valer a pena, seu cabelo vai ficar lisinho!”.

Arregalei os olhos. Não era isso que eu queria. Disse que era só um relaxamento. Ele se limitou a dizer um “ixi” e iniciar as manobras evasivas. Quando vi, estava com os olhos cheios de água em frente ao espelho, com o cabelo completamente molhado e liso. Muito liso. Nunca antes na história desse cabelo tão liso.

Queriam me convencer a fazer uma escova (lembra dela? tão inofensiva) para aguardar os próximos 3 dias, que não poderia lavar o cabelo. Chorei, disse que queria ir embora, e continuei chorando em casa pelos próximos 3 dias.

No fim as coisas se ajeitaram, o cabelo relaxou (até demais) e nunca mais foi tão armado. E eu nunca mais fiz qualquer química no cabelo, só umas inofensivas escovas. Entre as perucas existentes, a de cachos ainda é a única possível.

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